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I say potato

Opinião

Capicua

Seria educativo explicar que não é o sotaque do Norte, das Beiras, do Alentejo ou das Ilhas que faz das pessoas parolas

D.R.

Fred Astaire e Ginger Rogers cantando I say potato, you say potato no clássico Let’s Call the Whole Thing Off e eu a pensar em fazer uma letra equivalente para as diferenças linguísticas entre o portuense e o lisboeta.

Desde que ouvi pela primeira vez a letra numa aula de inglês, ainda na escola, percebi que esta variação de sotaques se aplica também na nossa língua e que nós também deveríamos ter uma canção que a consagrasse. Até para podermos usá-la nas aulas de português.

Seria muito útil ensinar aos lisboetas que (sim) eles têm um sotaque 
e que (não) a sua forma de falar não é “neutra”. Seria importante perceber que não há nada de errado com as diferentes fonéticas da nossa língua 
e que lá porque na televisão e na rádio há um predomínio do alfacinha, 
o resto dos sotaques têm direito à vida e recomendam-se.

Seria educativo explicar que não é o sotaque do Norte, das Beiras, do Alentejo ou das Ilhas que faz das pessoas parolas. E que no Norte, nas Beiras, no Alentejo ou nas Ilhas há muita gente culta e educada que tem sotaque e faz questão de o manter. E claro que em vez de potato, tomato, neither ou either, com as diferentes fonéticas que a língua inglesa contém, a minha letra estaria preenchida pelas nossas palavras, com as suas nuances e com os mal-entendidos que às vezes acontecem nas nossas conversas.

Numa versão mais ambiciosa, abarcaria todas as variantes regionais (riquíssimas, aliás), brincando, por exemplo, com o facto de no Algarve se chamar alcagoitas aos amendoins e de haver quem noutras zonas lhes chame pinotes (numa derivação de peanuts). Mas como isso não caberia apenas numa letra e aproveitando a minha árdua experiência de trabalho nos perdidos e achados da tradução tripeiro-alfacinha, na qualidade de portuense que vive entre Lisboa e Porto há muitos anos, 
o melhor seria fixar a atenção por aí mesmo.

Começando pela fonética, teria de referir as diferenças entre como (do verbo comer) e como (enquanto conjunção). Que no Porto divergem foneticamente e em Lisboa não. Um portuense diria “eu cômo cúmo um alarve”. Um lisboeta acharia que isso é só esquisito. No Porto diz-se mestrado (com o E fechado) quando em Lisboa é “méstrado” (bem aberto). No Porto diz-se “dezôito” quando em Lisboa é “dezóito”. Já para não falar do “treuze” com U no meio, como alguns lisboetas fazem questão de dizer.

Depois passaríamos aos termos, para assinalar a cruzeta e o cabide, o aloquete e o cadeado, a sertã e a frigideira, o molete e a carcaça, o fino e a imperial, o cimbalino e a bica, o lanche e a merenda, o bolinho e o pastel (de bacalhau), o guarda-chuva (ou chuço) e o chapéu de chuva, a carteira (de senhora, diferente de porta-moedas) que em Lisboa é mala, a mala (do carro) que é porta-bagagens, o estrugido e o refogado, a sapatilha e o ténis, o manco e o coxo, os cordões e os atacadores, entre muitas outras coisas...

Claro que teríamos de enumerar também as expressões, como “três menos um quarto” e “um quarto para as três”, “à minha beira” e “ao pé de mim”, o pega e o toma (quando se entrega algo a alguém), o calcar e o pisar, e a minha favorita: bufar as velas em vez de soprar. Ou a incompreensão dos lisboetas quando um portuense diz “de caminho”, para dizer “daqui a pouco”. Ou quando diz “à meia hora” para indicar 
“ao meio-dia e meia” ou “ao meio-dia” para dizer “ao almoço”.

E finalmente o calão, como o tótil e o bué, o quito e a beca, o ressaca e o carocho, o paiva e a ganza, o chunga e o fatela, o azeiteiro e o bimbo, o guna e o mitra, o jeco, o cota, a bina, o bote, o travinca, a pita, o bacano e muitas outras coisas que podem ter ou não equivalente do outro lado.

Conclusão: a minha letra vai ter isto tudo, uma métrica perfeita, rimas complexas e uma pitada de ironia. Vai ser incríbel! Só falta escrever.

(Crónica publicada na VISÃO 1316 de 24 de maio)