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Tower of Song

Aquele que ofereceu a sua vida a esta forma de arte tosca, popular, ligeira, menor, maior, encontra no seu semelhante um amigo de infância, de sempre

Tem sido através da música que a vida me tem trazido tudo aquilo que de melhor me tem acontecido. Não são muitas as pessoas que se sujeitam a esta empreitada estranha, não são muitos aqueles que entregam a sua existência a esta tarefa bizarra. “Ninguém entende, nessa aparência bizarra, como é que a gente se prende às cordas duma guitarra”, conforme cantava o Carlos Ramos. Ninguém entende a não ser uns aos outros. Aquele que ofereceu a sua vida a esta forma de arte tosca, popular, ligeira, menor, maior, encontra no seu semelhante um amigo de infância, de sempre, numa amizade que se pode rebobinar até ao dia em que um “Deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira liga e animou todos os sons”, como garante o Chico Buarque. São almas que reconhecem a importância urgente e aflitiva de munir este mundo de mais uma canção, mesmo que o mundo não precise de mais canções, como disse o Bob Dylan há 30 anos. Andar a bordar refrões durante o pequeno-almoço em família, emparelhar palavras e melodias no comboio, rematar refrões durante o sono, é uma empreitada que ocupa a existência duma pessoa de forma tirana, permanente, exclusiva, inconsciente, inteira, numa demanda que reclama 
a vida toda duma pobre alma desde que, ainda criança, se põe ali de pé, 
a mendigar cá em baixo, à porta da torre da canção, na esperança de que o Hank Williams atire de lá de cima uma côdea. “Dá-me um refrão, torre da canção”, implora o Samuel Úria em forma de prece-canção. E a coisa mais maravilhosa é encontrar outros. As pessoas reconhecem-se e unem-se numa cumplicidade sincera e antiga, numa amizade de sempre. Conheci 
a Mafalda Veiga há poucas semanas e é para mim um bálsamo para a alma andar por perto, ouvir as histórias. A Planície (a miraculosa e maravilhosa canção dos pássaros do sul) nasceu em cinco minutos, quando a sua autora nem 20 anos tinha. A melodia dessa música é um milagre, como é que uma coisa dessas é possível? Como é que se faz para ser tão bom? Uma pessoa ouve uma música a tocar dentro da cabeça e tenta sacar os acordes, como se estivesse a tentar sacar os acordes duma música do Cat Stevens, daquelas de sempre, só que é uma música que não existia e de repente passa a existir, é literalmente assim. O Marcelo Camelo, a falar da canção Despedida, diz que nasceu feita, diz que veio com o princípio do mundo. Esta vida deu-me a conhecer o João Gil, o Carlos Tê, o Rui Veloso, os meus maestros soberanos, e eu massacro-os com perguntas e eles falam, contam, uma pessoa nesta vida junta-se e são soldados a mostrar as suas feridas de guerra, pessoas que confiam em mim porque sabem que eu ando também a tentar, dizem como foi, também não sabem de onde veio, de onde vem. “But while they search for a mate my type hibernate In bedrooms above, composing their songs of love”, explica o Neil Hannon.

O Leonard Cohen já rastejou em cuecas na alcatifa de um motel à procura duma palavra. O Chico Buarque fala da descida aos infernos. 
O Jorge Cruz conta que sai de casa e anda dum lado para o outro sem rumo, desesperado. O João Gil diz que um dia foi em tronco nu para a janela e começou a cantar “Querida mãe, querido pai então que tal”, 
como um louco, a gesticular. É difícil, quanto mais simples mais difícil. 
“I said to Hank Williams, how lonely does it get?

Hank Williams hasn’t answered yet.” Mas as canções lá vão aparecendo. “Mesmo miseráveis os poetas como eu, são bonitas, não importa, são bonitas as canções”, voltando ao choro bandido do Chico Buarque. E são. Para mim, são. Tem que se ir fazendo, mesmo que não se acredite, como se se acreditasse num fim último, em que tudo faz sentido, até as canções. Uma pessoa agarra-se às palavras sábias do Daniel Faria 
e segue seguindo. É o poema mais simples e mais importante do mundo:

“Seja o que for
Será bom.
É tudo."

(Crónica publicada na VISÃO 1315, de 17 de maio de 2018)