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O futebol, a ‘clubite’ e os média

Nestes despautérios do futebol importa anotar que muitos média têm concorrido para eles – sobretudo as televisões, incluindo a pública

Não vou gastar adjetivos com a série de situações lastimáveis, ou de poucas-vergonhas, que infestam hoje o futebol português. De vários géneros e a vários níveis, em particular ao mais alto dos principais clubes. O estado a que se chegou imporá algumas providências, não faltando quem face a esse estado clame por uma maior intervenção do Estado. (Às vezes são os que mais o querem minimizar no essencial, como assegurar condições de vida dignas para todos, que mais a ele apelam para resolver problemas criados pela ausência de intervenção que preconizam...)

Nestes despautérios do futebol interessa-me anotar aqui que muita comunicação social tem concorrido para tal estado de coisas – sobretudo as televisões, incluindo a pública. E anotar que certa forma de relacionamento entre alguns clubes, e de tratamento noticioso/opinativo por parte dos média, às vezes me (a)parece como uma caricatura, ampliada e grosseira, do que se passa entre e com alguns partidos políticos.

Os média devem assumir nisto a sua quota parte de “culpa” e decidir se querem ou não arrepiar caminho. Para quem defende que o jornalismo não se pode vergar à ditadura dos negócios e das audiências e, como eu, defende também que o jornalismo não é, não deve ser, fundamentalmente, poder ou contrapoder mas sim responsabilidade social e cívica – a opção só pode ser uma.

Sem poder referir todos os aspetos que configuram aquela “culpa”, destaco três: a) a injustificada relevância dada pelos média ao que nem é futebol – esse joga-se dentro das quatro linhas –, são antes os infindáveis paleios, as polémicas, as guerras e as negociatas à sua volta; e, b) as figuras a ele ligadas: por exemplo, os presidentes dos grandes clubes são transformados em vedetas nacionais, com as perniciosas consequências daí decorrentes; c) o aproveitamento da rivalidade entre clubes, não como sadia competição mas como luta sem regras, criando verdadeiros ódios, mormente entre as famigeradas “claques”.

De tudo isto, e não só, também são vítimas diretas os próprios profissionais da informação a quem cabe fazer uma cobertura séria e independente dos eventos clubísticos. O que levou o Sindicato a denunciar agora às autoridades competentes que “a liberdade de imprensa está a ser condicionada por pressões ilegítimas e ameaças graves à integridade física e à dignidade profissional dos jornalistas”.

Não ganhará juízo essa gente? E não poderão/deverão os média contribuir para, pelo menos, diminuir a clubite como irracional, como cegueira, como excesso, como desrespeito pelo (se não ódio ao) outro? Julgo que sim. Como? Desde dar menos destaque às figuras e aos casos do futebol até estimular o sentido crítico e a conformidade, neste campo, dos atos com valores essenciais de uma sociedade civilizada. E, por exemplo, não favorecerão apenas a clubite – na sua expressão mais extrema, futebolística, ou mais mitigada, partidária – os programas, e são tantos e tão iguais!, com dirigentes ou adeptos dos principais clubes ou partidos confrontando-se a partir das suas trincheiras, às vezes parecendo que se deseja que se ataquem muito, para aumentar as audiências?...

(Artigo publicado na VISÃO 1309, de 5 de abril de 2018)