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Compreender a academia para transformar a “roda de rato” em “gaiola com ambiente enriquecido”

Esclarecimento de Tiago Fleming Outeiro, professor na Universidade de Goettingen, Alemanha, e CEDOC, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa, em resposta ao artigo “Roda de Rato”, da autoria de Capicua, publicado na VISÃO 1306

Esclarecimento em resposta ao artigo “Roda de Rato”, publicado na VISÃO 1306, da autoria de Capicua

Passados 20 anos, considero-me um privilegiado por poder continuar na academia mas, acima de tudo, por poder dizer que faço aquilo de que gosto, e que me apaixona todos os dias, apesar das dificuldades. Nem todos nascemos para ser futebolistas, economistas, artistas, engenheiros, ou políticos, para citar apenas algumas profissões dignas e difíceis. Da mesma forma, nem todos nascemos para ser investigadores, ou académicos. Eu não sei se nasci para ser académico, mas sei que um doutoramento é algo que se deve fazer por convicção, e não apenas por sermos empurrados pelo sistema, por ser “pago para estudar”, ou para experimentar e ver no que dá. Porque um doutoramento é duríssimo, de facto. Exige uma dedicação constante, uma vontade sôfrega por obter respostas para as perguntas que temos, e uma capacidade muito grande para enfrentar as frustrações das experiências que não funcionam, dos dias longos e cansativos, da necessidade de ler para nos mantermos sempre actualizados. Um doutoramento não deve ser uma altura de isolamento, mas sim de contacto com colegas investigadores, questionando, tentando compreender, procurando saciar a nossa sede de conhecimento.

Como escreveu o Prof. António Coutinho, fazer ciência implica pensar na pergunta que queremos responder “o tempo todo, sem meias medidas”. A ciência não pára à noite nem ao fim de semana. A curiosidade não abranda nas férias. E “que frete seria fazermos o que não gostamos”, ou algo que tentamos fazer porque parece bem, porque nos pagam, ou até que surjam outras oportunidades. A ciência é, para mim, um modo de vida, uma escolha, uma motivação.

Tenho um grande respeito por todos os que fazem ciência e investigação, desde um estagiário a um professor Catedrático, passando pelos estudantes de mestrado, de doutoramento, investigadores “postdoc”, técnicos de investigação, e quaisquer outros que permitam e facilitem o trabalho dos investigadores. A academia é o conjunto de todos estes agentes, e não existe sem deles. E é isto que importa clarificar, para que os que iniciam uma carreira académica entendam como a ciência funciona, e não achem que os orientadores são necessariamente “chulos” ou “sanguessugas”, e que os “coitados” dos estudantes e “postdocs” são as vítimas, os trabalhadores, os que que fazem sozinhos a excelência do sistema académico. Não digo isto para defender interesses corporativos para proteger professores instalados, pois nem sequer exerço a minha actividade em Portugal. Digo isto por conhecer bem o sistema, por ter subido os vários degraus, ter passado por países e instituições diferentes, e por poder clarificar ideias erradas. Também não digo que não existam orientadores menos dotados, que sejam mais oportunistas, e que não façam bem o seu trabalho. Profissionais menos bons há em todo o lado. A academia, como outras actividades, tem situações em que os menos bons também são protegidos. E não é isso que eu defendo, de todo. E também é verdade que nas ciências sociais há situações mais problemáticas do que nas ciências da vida. Mas não podemos generalizar, e devemos entender o papel de cada um no mundo académico. Ora vejamos. Algum estudante de

mestrado, doutoramento, ou postdoc poderia fazer ciência sozinho? Sem um orientador que lhes permitisse usar um espaço de laboratório equipado, com financiamento, com condições de trabalho? Não.

Algum estudante conseguiria uma bolsa da FCT sozinho? Conseguiria a publicação dos seus artigos (papers) sem a orientação de alguém mais senior como responsável? Não.

Eu já orientei mais de 60 pessoas ao longo dos anos. Viajo muito. Não estou sempre presente. Mas tento apoiar os meus estudantes no seu trabalho diário, sob formas nem sempre visíveis, mas importantes. Participo em algumas reuniões “chatas”, para que os estudantes possam focar-se no trabalho. Corrijo os textos que escrevem, oriento os seus trabalhos, corrijo teses de doutoramento, apresentações, pósteres, e relatórios. Participo em reuniões de comité de tese, em júris de provas de mestrado ou doutoramento. Escrevo projectos para obter financiamento para permitir que os estudantes trabalhem. Negoceio espaço de laboratório com a Universidade. E faço mais um número de coisas que asseguram o funcionamento do grupo de investigação, e o sucesso dos seus membros. Em equipa, pois a vida académica não é apenas a vida individual de cada um dos investigadores. E como eu, muitos dos colegas investigadores, pois eu não faço mais do que eles.

No entanto, como a democracia, também a academia não é um sistema perfeito. Tem falhas que devem ser resolvidas, mas isso é tema para outros textos, para outras reflexões. Mas não é o conselho de reitores sozinho quem vai resolver esses problemas. Devemos compreender o sistema antes de dispararmos comentários ressabiados e pouco acertados, ou antes de nos resignarmos a achar que os académicos são oportunistas, incubados em jotas, e que estão no sistema e roubam os lugares aos iluminados e injustiçados que são excluídos pelo sistema e por um qualquer conselho de reitores.

Do meu lado, tentarei fazer ciência, enquanto sentir a paixão que me faz levantar todos os dias e chegar ao laboratório/gabinete pelas 7h30 da manhã, e responder a emails de trabalho à 1 ou 2 da manhã. Tentarei transmitir a minha forma de ver a investigação aos mais novos, incentivando aqueles que vejo que têm valor a continuar e a acreditarem que a ciência vale a pena, apesar de ser muito difícil. Nunca senti que deixei de viver por me dedicar ao que faço. Tenho família e amigos, viajo, e sinto-me realizado. Mas, se um dia deixar de o sentir, tentarei ser honesto comigo, e com os colegas académicos, para tentar fazer outra coisa que me motive da mesma forma. Porque prefiro tentar viver “numa gaiola com ambiente enriquecido*” do que sentir que ando numa “roda de rato**”.

*Gaiola com ambiente enriquecido é uma gaiola de maiores dimensões, onde são colocados objectos, e desafios para estimular os ratos, em contraponto com as gaiolas onde normalmente os animais de laboratório são criados.

**Roda de rato é uma roda que vemos em gaiolas de animais domésticos, onde os animais correm sem saírem do lugar.

  • Roda de Rato

    Opinião

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