Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O mercado das ideias

A solução não pode nem deve ser a de travar a inovação tecnológica

Na minha última crónica, insisti na importância de não perder de vista que as nossas sociedades políticas devem tanto ao seu pilar democrático como ao seu pilar liberal. Curiosamente, o recente debate em torno dos perigos das redes sociais é precisamente um debate em torno da fragilidade de cada um desses pilares.

Desde logo porque Facebook, Google e (talvez sobretudo) YouTube fizeram implodir o modelo de negócio da comunicação social tal como o conhecemos. O ponto não é sugerir que este foi um desígnio explícito ou ilícito. O ponto é – por agora – só constatar o facto. Primeiro a imprensa, agora a televisão, a seu tempo a rádio (é uma questão de esperar pela generalização dos automóveis conectados) foram acordando para a realidade inexorável de que vão ter de viver com radicalmente menos publicidade do que estavam habituados. Tal não significa a morte dos média com visão e capital para reinventar os seus modelos de negócio (isso dá para outra crónica). Mas infelizmente muitos ficarão mesmo pelo caminho, dando corpo à ameaça da destruição da infraestrutura de informação que, com cambiantes várias, desde o século XVIII, materializou aquilo a que se convencionou chamar o “marketplace of ideas”, o mercado livre de informações e opiniões contrárias, descentralizadas e livres a partir do qual pode emergir a cidadania bem informada que dá corpo a uma democracia substantiva, que vá além da regra formalista do voto por maioria.

No seu lugar, os gigantes tecnológicos vão criando gigantescas máquinas de marketing capazes de usar toda a sua inteligência algorítmica para comunicar mensagens com uma eficácia até hoje nunca vista. Mas este problema nem é novo (tudo isto já se disse sobre a rádio e sobre a televisão) nem é o mais sério. O ponto crítico é que o mercado de milhares de jornais, revistas, televisões, competindo entre si com mensagens e “verdades” contraditórias, obedecendo a agendas diversas e refletindo mundivisões opostas, vai sendo substituído por um oligopólio que, por ser hiperconcentrado, não tanto por ser tecnologicamente sofisticado, é potencialmente capaz de conformar pensamentos únicos.

Mas se o pilar democrático se vê fragilizado, o que dizer do pilar constitucional ou liberal? Relembremos apenas que aquilo que distingue um regime liberal de um regime totalitário é a existência de uma esfera de privacidade e de direitos fundamentais em torno dos cidadãos que nenhum poder – político, económico ou outro – pode violar. Ora, o que o escândalo do Facebook vem pôr a nu é apenas a ponta do icebergue: no mundo digital em que vivemos, essa esfera de privacidade está ameaçada como nunca esteve. É preciso dizer mais?

Deixo a boa notícia para o fim. 
A tecnologia não é inerentemente boa nem inerentemente má. Basta, aliás, relembrar o papel importante que o mesmo Facebook terá tido em mobilizações democráticas um pouco por todo o Mundo. A solução não pode nem deve ser, portanto, a de travar a inovação tecnológica.
Que tal começar pela receita clássica dos regimes demoliberais que fizeram da existência de um mercado livre de ideias um dos seus objetivos maiores: regulação simples e genérica, reguladores fortes, e uma guerra sem quartel à concentração de poder?

(Artigo publicdo na VISÃO 1308, de 29 de março de 2018)