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Seráque Seráque

Desisto, recomeço, nem um parágrafo se aproxima de mim, qualquer coisa lá ao fundo, na cabeça, que ao chegar devagarinho, na esperança que não dê por ela, reparo que não é nada e isto durante horas, dias, semanas, onde pára o meu livro

Susa Monteiro

Agora estou entre dois livros, o que é sempre uma altura difícil para mim. O medo de ter secado, a angústia de não ser capaz de escrever. Quando digo que estou entre dois livros não é verdade: o que acabei desapareceu para sempre e o próximo não passa de uma inquietação informe, meia dúzia de palavras que às vezes se aproximam umas das outras em frases sem nexo que se dissolvem na minha cabeça, vagas, truncadas, se reúnem mais adiante de um modo diferente, se afastam de novo, deixam uma baba vaga no papel, se perdem, desaparecem, prometem voltar e não voltam, surgem outras, igualmente sem nexo, no lugar delas, risco tudo, deito a página fora, continuo à espera, de Bic na mão, que uma frase poise por aí, infelizmente passam a voar muito longe, num vazio que a esferográfica não alcança, tento um esboço de plano, desisto, recomeço, nem um parágrafo se aproxima de mim, qualquer coisa lá ao fundo, na cabeça, que ao chegar devagarinho, na esperança que não dê por ela, reparo que não é nada e isto durante horas, dias, semanas, onde pára o meu livro, ponham-no aí à minha frente porque quero escrevê-lo, a minha vida inteira, palavra de honra, depende de escrevê-lo, como se faz uma frase, digam-me, ensinem-me a compor uma frase, uma frasezinha chegava, dado que, se a conseguir, as outras principiam a aparecer uma a uma, aí estão elas poisadas numa estante ou empoleiradas no cinzeiro a olharem-me, não façam barulho agora para que o livro não fuja, são tão escorregadios os livros, tão difíceis de apanhar, tão furtivos, e isto durante horas, dias, semanas, até que de repente, quando já não espero nada, fecho a mão e está ali todo dentro dos meus dedos, sinto-lhe a forma, a pulsação, a cadência, fecho a outra mão, por cima da primeira, com ele a agitar-se ainda, tranco devagarinho a gaiola da página porque no interior da gaiola não conseguem escapar-se, acho que tenho um livro, acho que tenho um livro, à terceira ou quarta página é meu, não logra deixar-me mas agora não tenho nada, continuo à procura, afigura-se-me que qualquer coisa ali, será que, será que, seráque, seráque, tento aproximar-me por trás, onde o livro não vê, quando era pequeno apanhava moscas na vidraça assim, lá ficavam a zumbir-me na palma, em criança o meu irmão Pedro na casa de banho, já nu, caçava uma na janela, arrancava-lhe as asas, deitava-se na água da tina, só com a ponta da pilinha de fora, colocava a mosca em cima da ponta e enquanto ela passeava naquele bocadinho de pele, sem poder deixá-lo, garantia que as patas do insecto eram óptimas, logo a seguir a desmancha-prazeres da minha mãe entrava, debruçava-se intrigada

– Que parvoíce vem a ser esta?

ralhava com o Pedro

– Já tens cinco anos não és nenhuma criança

como logo a seguir ao banho era o jantar, a fim de não irmos para a cama demasiado sujos, o jantar a altura do dia em que o pai se sentava connosco à mesa

(a mãe e o pai ocupavam, cada qual na sua cabeceira, as únicas cadeiras de braços)

dava-me ideia que divertido enquanto a mãe zangada, ambos em silêncio mas com a cara de quem tinha falado antes de coisas que não queriam que ouvíssemos, intrigava-me a mãe indignada enquanto o pai ia apostar que de certa maneira orgulhoso do Pedro dado que a certa altura um risinho que secou logo no guardanapo, de queixo apontado ao Pedro

– Este miúdo

no que quase ia apostar ser uma espécie de admiração orgulhosa enquanto a mãe abanava a cabeça

(tradução para Português do abanar de cabeça da mãe

– Francamente)

o meu pai, antes de se esconder no guardanapo

– Ai de vocês se apanho uma mosca sem asas no quarto de banho

de onde surgia uma espécie de soluço divertido enquanto o Pedro engolia a toda a pressa a sopa detestável que nos obrigavam a comer

(nessa época não havia sopa que não fosse detestável)

no arzinho inocente que conservou a vida inteira. Mais crescidos, aí por volta dos dezassete ou dezoito anos, o Pedro, o único de nós moreno, de cabelo preto e olhos escuros, que a vida presenteara com uma beleza física extraordinária, deu em namoriscar uma menina feia como a noite dos trovões. Estávamos à mesa ainda, os meus manos interrogavam-se acerca da menina e das razões do entusiasmo do Pedro até que eu comentei

– Se calhar é melhor do que as moscas

a que se seguiu um silêncio de espera e o comentário do Pedro, de olhos quase fechados

– Melhor melhor não digo mas capaz de andar ela por ela.

E nós, esperançados

– Tem irmãs?

e infelizmente não tinha. Mas olhando melhor quase se lhe notavam as patinhas.

(Crónica publicada na VISÃO 1307, de 22 de março de 2018)