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Roda de Rato

Na mesma meia hora em que soube que não haveria bolsa, recebi a proposta da Valentim de Carvalho para assinar contrato por alguns discos

Safei-me a tempo da academia. Depois da licenciatura, trabalhei como tarefeira num ou dois projectos, mas decidi concorrer a uma bolsa e lá fui eu para Barcelona fazer o doutoramento. Não ia convicta, mas tinha vinte e três anos e achei que era melhor estudar o que eu quisesse, ser paga por isso e reforçar as minhas capacidades de pesquisa numa área de estudos que me interessasse mesmo. Durante aqueles anos, aprendi mais sobre perseverança, autodisciplina e ansiedade, do que sobre o meu objecto de estudo.

Fazer um doutoramento, é duríssimo. Por muitas horas que passem, nunca trabalhamos o suficiente. O sentimento de culpa é permanente. O isolamento é quase total, porque além do nosso orientador (que muitas vezes não é assim tão disponível) e de um ou outro colega que está a passar pelo mesmo, quase ninguém entende a nossa bolha e o que raio é essa coisa tão específica que nos leva a passar anos de vida dedicados a esmiuçá-la até à loucura.

Enfim, consegui o cum laude em 2011. Em plena crise. Os cortes na ciência foram profundos, sobretudo para as ciências sociais e os concursos ou não abriam, ou acumulavam candidatos com anos de curriculum académico e que, à falta de oportunidades de trabalho, concorriam a tudo, na esperança de não ficar no desemprego (sem subsídio). Era impossível competir. Tentei a bolsa de pós-doc, mas, não tendo ficado nada mal colocada na lista, vi que a meia dúzia de bolsas atribuídas tinha sido conquistada por gente com mais quinze ou vinte anos que eu, com décadas ao serviço da universidade e que inexplicavelmente não tinham outra opção senão continuar de bolsa em bolsa. Um dos investigadores dessa lista, tinha sido meu “chefe” no meu primeiro trabalho, anos antes. Não era justo para ninguém.

Na mesma meia hora em que soube que não haveria bolsa, recebi a proposta da Valentim de Carvalho para assinar contrato por alguns discos. Um não, que fechava a minha carreira-académica-to-be e uma janela aberta que acabou por mudar a minha vida. (Às vezes as coisas põem-se mesmo claras à nossa frente).

Lá fui eu fazer música, feliz da vida, enquanto os meus colegas continuaram desesperadamente à procura de sobrevivência nessa roda de rato que se tornou a academia. Uma das minhas mais brilhantes colegas de doutoramento a leccionar cadeiras de licenciatura e mestrado por 500€. Um dos meus grandes amigos da faculdade, acumulando cadeiras novas todos os anos, que há que preparar do zero, mais as orientações de teses e o trabalho científico, a recibos verdes, ou a contratos de seis meses. Ambos brilhantes, dedicados, actualizados, com artigos publicados, respeitados por colegas e alunos, mas permanentemente chulados pelos seus antigos orientadores, pelos investigadores seniores, pela universidade como um todo.

São eles que escrevem os papers, são eles que preparam e dão as aulas, são eles, portanto, que conseguem que as universidades sejam bem pontuadas nos rankingns e ganhem prestígio internacional, assim como são eles que garantem os mestrados pelos quais as universidades ganham propinas. São eles que escrevem os artigos que os seniores vão co-assinar. São eles que cumprem os projectos que os seniores vão acrescentar ao gordo curriculum, para ganharem mais projectos e terem mais bolseiros a trabalhar ad eternum, dependentes e precários.

O conselho de reitores não tem interesse em acabar com a precariedade na academia, porque ela favorece os professores instalados. Eles são os vampiros que se alimentam do sangue novo (e já não tão novo assim) dos que ficam dez, vinte, trinta anos, a lutar por um contrato, uma vaga, um lugar. E é por isso que, chegados aqui, ficou claro: o caminho mais rápido para consegui-lo é mesmo crescer numa jota, acabar um curso numa privada com uma média sofrível, conseguir ser eleito primeiro-ministro, empobrecer o país, desinvestir na ciência, para no fim receber um convite de um amigo do partido e chegar a catedrático.

(Crónica publicada na VISÃO 1306 de 15 de março)