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E quando nos começamos a preparar para a mudança?

Como podemos ter empresas a crescer com novos produtos e serviços se todos os novos produtos e serviços são olhados com desconfiança, medo, obrigados a esperar por burocráticas autorizações?

O mundo da economia digital, da robótica, da inteligência artificial, é o mundo em que vivemos hoje, já não é sequer o mundo que vamos encontrar amanhã. É por isso impressionante a ausência de pensamento político sobre o impacto deste mundo na nossa realidade económica, social, cultural, comercial, laboral, industrial ou institucional, sobre a necessidade de adaptação das políticas públicas, do modelo de Estado, para cobrir, acautelar, acomodar esta nova realidade.

Provavelmente já terei perdido alguns leitores com esse primeiro parágrafo, convencidos talvez de que escrevo sobre um mundo particular, privilegiado, distante, esse mundo em que máquinas e robots são capazes de armazenar dados e conhecimento antes inimagináveis, em que robots substituem pessoas, em que máquinas preveem com acerto comportamentos humanos, em que 10% a 40% das funções laborais existentes vão deixar de existir. É um pouco essa a impressão geral da política portuguesa, a de que esse mundo não é nosso, nunca vai ser o nosso, pelo que nem vale a pena pensar nele, como se este novo mundo, esta nova economia, se ficasse por Silicon Valley, como se Portugal estivesse a salvo, resguardado, ou condenado a ficar com os restos.

Sucede que, ao contrário do que esse silêncio parece presumir, esse novo mundo é o nosso, o de agora, e os seus efeitos transformadores são imensos, intensos, e aprofundar-se-ão à medida que as novas tecnologias rasgarem novas fronteiras. Trazem, como qualquer mudança, um sem-fim de oportunidades. Novos empregos, novas funções, novos serviços e produtos, novos mercados, novas necessidades, novas formas de melhorar a vida de todos. Trazem, como qualquer mudança, o desajustamento dos que vivem ou trabalham ou empreendem nos velhos paradigmas, o desacerto dos que fizeram apostas volumosas num mundo ultrapassado, o desconforto dos que não se sentem preparados, capacitados, para o que começa a ser exigido. Trazem, como qualquer mudança, a insegurança e o medo a uns, o aguçado engenho e criatividade a outros.

Existe, por isso, a absoluta, urgente, necessidade de reagirmos a estas mudanças, definindo um enquadramento que permita aos setores mais dinâmicos da sociedade e da economia portuguesas aproveitar as oportunidades do novo mundo, estabelecendo-se e vencendo nele, e promovendo um ajustamento no modelo de Estado que permita aos setores mais vulneráveis à mudança transitar para este novo mundo, apetrechando-se. Só assim Portugal pode ser um ator relevante na economia global, só assim as empresas portuguesas poderão criar emprego, só assim os mais vulneráveis encontrarão instrumentos acertados, só assim os mais fracos encontrarão proteção adequada. Só assim nos livraremos de ser varridos do crescimento, do progresso, do desenvolvimento.

Não é possível continuar a ter um modelo de escola, de ensino, de investigação, por melhor que tenha sido até agora, ancorado numa economia analógica, num mundo de globalização relativa, com desafios desatualizados. Como criaremos a massa crítica, a mão de obra, o conhecimento, para atuar e vencer neste novo mundo se ensinamos e investigamos e nos preparamos para o velho mundo, se as oportunidades que ensinamos são as de ontem?

Não é possível continuar a ter um modelo de prestações e previdência social, por melhor que tenha sido até agora, pensado para carreiras profissionais ou dinâmicas laborais que estão a alterar-se profundamente. Como protegeremos os que mais precisam se as carreiras contributivas ou as prestações sociais estiverem moldadas para realidades em desatualização constante?

Não é possível continuar a ter um modelo regulatório, de enquadramento da atividade empresarial, por melhor que tenha sido até agora, que presume uma permanente validação estadual para tudo o que é novo e desafia a realidade existente, que obriga a um calvário sem fim até que consiga regular-se o que de novo surge. Como podemos ter empresas a crescer com novos produtos e serviços se todos os novos produtos e serviços são olhados com desconfiança, medo, obrigados a esperar por burocráticas autorizações?

Nada disto é fácil. Se fosse, já estaria feito. Há vários países, economias, a procurar a melhor forma de lidar com esta realidade, investigando, debatendo, tentando. Mas por cá nem isso se faz, com um Governo amarrado a partidos que abominam a ideia de mudança, que se recusam a aceitá-la, que convictamente acreditam que a podem impedir ou atrasar por decreto. Mais do que isso, por cá até se estigmatiza quem levanta o dedo para falar do assunto, como se falar em mudar significasse piorar, cortar. É o contrário.

Portugal está a perder competitividade exatamente onde começa a nova economia. E é preocupante pensar como esta realidade motiva tão pouca reflexão e ação.

(Artigo publicado na VISÃO 1306, de 15 de março de 2018)