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A meta

A metacrónica é um metavazio transformado em saída de emergência. É que se a meta é conseguir entregar a crónica no prazo e não há ideias brilhantes, a metacrónica será a solução

D.R.

Eu sabia que um dia ia cair no cliché da crónica sobre não ter ideia nenhuma para a crónica. Era inevitável. Se todos os bons cronistas acabam por sucumbir a esse clássico descalçar de bota, porque é que eu, mera aprendiz, haveria de ter sempre um tema suculento para transformar em três mil e tal caracteres? A metacrónica é um metavazio transformado em saída de emergência. É que se a meta é conseguir entregar a crónica no prazo e não há ideias brilhantes, a metacrónica será a solução. É a autofagia criativa no seu esplendor. Alimentamo-nos da nossa própria falta de criatividade para forçar o ato da criação.

Acontece que, nesse golpe (que não é de génio, mas de desenrasca), o alívio de ter honrado o compromisso vem acompanhado de um banho de modéstia e da certeza que o brilhantismo do resultado, dependendo sempre do talento e dos recursos do cronista, neste caso será fraquinho. Por isso mesmo e se me permitem, sugiro que saltem já para a última página, onde poderão lavar as vistinhas com a brilhante crónica que Ricardo Araújo Pereira terá escrito, sem saber que, esta semana, teria a missão complementar de compensar a minha falta de conteúdo e rasgo.

Não me condenem. Ando com muito trabalho e o hemisfério direito esmagou o esquerdo. Que é como quem diz, andando sempre apressada, não tenho tido a atenção que a poesia das coisas exige. Não tenho o olhar limpo e infantil de quem vê o lado menos evidente da vida. A lupa que amplia a microbeleza do mundo. A disponibilidade para me inspirar. 
E é nestas horas de secura, de exaustão e de esterilidade criativa que me apercebo que o equilíbrio entre os hemisférios é delicado e que a minha ética de trabalho pode mesmo sabotar o meu trabalho.

Passo a explicar. Não sei se será da minha genética transmontana, se 
é um misto de teimosia e necessidade de auto e hetero aprovação, se é 
do meu zodíaco em sagitário, mas eu sou de uma obstinação otimista, que me atira para a frente, sem hesitações, arrastando, sozinha se preciso for, 
o peso da carroça pela ladeira acima, até a missão estar cumprida, 
no prazo e sem pestanejar. Claro que a minha genética tripeira resmunga furiosamente durante todo o processo, mas tem de ser e lá vamos invictas até à meta (e à metacrónica pelos vistos), até que a vitória nos una mais ainda. Isto quer dizer que imponho metas, cumpro metas, eficazmente, com sacrifícios mas orgulhosa de mim. E que nos períodos de muito trabalho, ponho a ética de trabalho à frente do resto, deixando de ter tempo para tudo o que não é trabalhar, dormir oito horas e cozinhar para mim (porque há mínimos de sobrevivência).

E mesmo que o meu trabalho nasça da criação, pela escrita e pela música, a grande parte das tarefas diárias são chatas ou burocráticas. Emails, telefonemas, orçamentos, planificação, produção, promoção e gestão de equipas. Fora as carrinhas, a espera, os ensaios de som e a pressa. Porque na estrada, metade da vida de um músico é esperar e a outra é correr. E as fotos, e os vídeos, e tudo o que não tem a ver com música mas é grande parte do trabalho do músico, fora as coisas indiretamente associadas que eu também faço, incluindo escrever esta crónica (com muito gosto) e fazer formação (também com muito gosto) e conversas, conferências, visitas a escolas. Essas coisas todas.

Ora, nas alturas em que tudo isto se acumula, em que se agiganta e atropela, o silêncio e o espaço necessários para que consiga sintonizar-me com a frequência de onda a que chamam inspiração deixam de existir. 
Ou seja, trabalho muito mas não consigo fazer o meu verdadeiro trabalho. E mesmo que consiga dizer “não” mais vezes e que tente desbravar a agenda para recuperar o meu superpoder, tenho andado engolida pela voragem dos dias.

Mas chegada aqui, à vergonha da metacrónica e seu banho de modéstia, o alarme tocou: não é o talento que faz (ou desfaz) o criador. É mesmo a vida.
Vou parar.

(Crónica publicada na VISÃO 1304 de 1 de março)