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Democracia no Sambódromo

A situação é grave para a já mutilada Democracia brasileira, mas não resolverá o problema estrutural da insegurança e da violência

Para a música brasileira, o surgimento do samba valeu como a descoberta de um novo continente. Para o Rio, foi como se a cidade tivesse finalmente encontrado a sua voz.” Quem o escreve assim, de forma excecional, no livro Carnaval no Fogo, é o jornalista e escritor brasileiro Ruy Castro. Não há dúvida, o Carnaval marca de forma profunda a identidade do Brasil, revela as suas origens e inspira os seus desafios atuais. No mês de fevereiro, a resistência e a mobilização popular não ficaram de fora do Sapacuí. 
A Beija-Flor foi campeã do Carnaval do Rio, vencendo numa votação renhida a Paraíso do Tuiuti. Em todo o caso, uma e outra escola, levaram para o Sambódromo a voz do povo brasileiro que luta em defesa da Democracia. Daí que seja tão importante analisar a razão destes enredos em 2018.

Em edições anteriores, a Tuiuti já havia homenageado o pintor Cândido Portinari, o poeta Vinicius de Moraes, o grande mestre Cartola, a cantora e compositora Clara Nunes, o “Mais Doce 
Bárbaro - Caetano Veloso”, os 
50 anos do movimento Tropicália. No Carnaval deste ano, o enredo da Tuiuti respondeu à pergunta: “Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?”

Passados 130 anos da Lei Áurea, que no papel aboliu a escravatura, e num momento em que nas ruas se combatia a Reforma da Previdência de Temer (ataque aos direitos sociais e laborais), este enredo não podia ser mais atual. A ala dos escravos abriu o desfile, e assim continuou contra a precariedade, exigindo emprego com direitos, denunciando a concentração da propriedade dos media e a manipulação da informação, e um vampiro que representava Temer.

Para perceber esta jornada de luta no sambódromo é necessário recuar a 2016 (na verdade, mais alguns séculos, mas não temos espaço agora). Em pleno verão desse ano, através de um autêntico golpe de Estado institucional, Dilma Rousseff foi destituída de Presidente do Brasil, após ter sido eleita por 
54 milhões de brasileiros. Não cometeu qualquer crime que o justificasse, apenas representava a continuação de medidas de combate à pobreza, de defesa dos direitos dos trabalhadores, do investimento na educação e saúde enquanto direitos para todos. Subiu ao cargo Michel Temer, formalmente acusado de corrupção e suborno, reconhecidamente atolado em escândalos de corrupção, profundamente contestado pelo povo brasileiro. Aliás, o impeachment foi desencadeado e conduzido por deputados com um historial de irregularidades e ilegalidades e sobre os quais pendem processos de investigação criminal.

De resto, tal prova bem que o que motiva este processo não é um combate sério à corrupção mas antes um ajuste de contas com um caminho de progresso e de justiça social. A razão deste golpe é destruir as medidas que permitiram aumentar de três para oito milhões os estudantes universitários que garantiram emprego, direitos e carteira assinada, que reduziram gigantescas desigualdades sociais.

As forças reacionárias brasileiras e os EUA nunca se conformaram com a derrota do seu candidato nas eleições presidenciais de 2014, tendo procurado através de todos os meios reverter o processo de mudanças sociais e de afirmação da soberania, iniciado em 2002 com a vitória de Lula da Silva. A reconquista de posições perdidas na América Latina e nas Caraíbas anima o combate pela restauração do que chegaram insultuosamente a chamar seu “pátio das traseiras”.

Entretanto a Reforma da Previdência foi derrotada pela unidade do movimento sindical brasileiro que realizou grandes mobilizações e uma histórica Greve Geral. Temer respondeu com uma medida inédita em Democracia: colocou o exército no comando da segurança pública, desvalorizando o papel da polícia, Ministério Público e Magistratura, impondo mandados de busca e apreensão coletivos, definindo áreas de periferia como territórios de ocupação militar, revistando crianças, mulheres, idosos. A situação é grave para a já mutilada Democracia brasileira, mas não resolverá o problema estrutural da insegurança e da violência.

Muita força para o caminho das transformações políticas, económicas e sociais que a sociedade brasileira reclama. A todos os democratas, ao povo brasileiro: “Aquele abraço”

(Artigo publicado na VISÃO 1304, de 2 de março de 2018)