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Crónica do rapazito de ar melancólico junto ao paredão de Matosinhos

Opinião

Miguel Araújo

Se nada interessa por que carga de água é que o meu coração parece que me sai da boca de cada vez que ela passa por aqui a esta hora

D.R.

Quase todos os dias vou correr junto ao mar e quando, ao descer, dando de cara na água viro para a direita, costumo ir até Leça e passo na marginal de Matosinhos junto às estátuas de umas velhotas de pedra de ar constantemente assarapantado. Uma vez reparei num rapaz a reparar numa miúda que passava e dava para ouvir o que ele pensava, ela pensava que se este mundo é uma migalha de pão suspensa no nada, uma poeirazita, um microgrão de areia que se soltou numa explosão que ocorreu muito no antigamente e nós, os habitantes deste mundo, somos poeira de estrela, somos o que restou de uma fuga de gás, porque algum Deus ausente deixou o gás aberto e é capaz de ter acendido um isqueiro ou coisa que o valha e puuum, o nada estilhaçou-se como uma bola de areia se estilhaça ainda no ar e que se saiba nada a não ser nós, aqui dum lado para o outro junto ao paredão de Matosinhos, uns de gelado na mão outros de jornal debaixo do braço, os que ainda compram jornal, será que sequer o leem ou a cova do braço já se habituou àquela trouxa de papel, e se isto é assim aqui em Matosinhos imagino no mundo inteiro, que apesar de migalha de pão suspensa no nada ainda vai daqui até à Austrália e volta, imagino a quantidade de gelados, a quantidade de jornais, uns a passear cães, outros a passear fantasmas e tudo para quê, um grão de areia a rebolar sobre si próprio no nada, do nada e para nada, só porque alguma ameba rebolou para fora do mar e foi por aí fora em cascata até que houve um macaco que desceu dum galho e desengatou-se este rebuliço todo, este motim, este tropel, pessoas dum lado para outro em tais preparos que qualquer dia não se cabe nesta poeira aos trambolhões no céu, isto sem contar com os que já morreram, os que morreram de doenças que já não existem, como por exemplo escorbuto, os que apanharam peste negra, os que foram devorados pelos espanhóis, os que morreram no caminho porque nem sequer existiam comboios, e porquê, porquê tanta consumição, porque tantos comboios, os que morreram de vergonha, os que morreram de peçonha, os que nem sequer nasceram, os que ainda se arrastam junto ao paredão de Matosinhos a esta hora porque se estão aqui a esta hora é porque estão sem emprego, emprego para quê, se calhar é melhor assim, sempre passeiam junto ao mar e o cheiro talvez lhes lembre quando ainda eram uma simples ameba, um ser unicelular a salvo de tanta consumição, basta olhar para as velhas, de costas para os que passam e de mãos na cabeça a olhar para o mar, aflitas, empedernidas, com certeza que não terá sido alguma ameba que naufragou, as amebas não dão nem se dão a consumições, e mesmo as alegrias, alegrias para quê, se o mundo é uma poeira às voltas no nada, um berlinde lançado em direção a coisa nenhuma infestado de bichos e pessoas, da mesma maneira que um berlinde a sério vai cheio de micróbios e coisas assim que daqui não dá para ver, da mesma maneira que do espaço a Terra é um berlinde azul e se afastarmos mais é um ponto negro e se afastarmos mais ainda nada, absolutamente nada, nem Matosinhos nem Austrália, não se vê nada e tudo isto porquê, tudo isto para quê, se nada importa, nada interessa, e se nada interessa por que carga de água é que o meu coração parece que me sai da boca de cada vez que ela passa por aqui a esta hora, era o que parecia pensar o rapazito sentado no muro junto ao paredão de Matosinhos, com um olho no nada (como que a olhar para dentro) e outro na tal rapariga que ia a passar, pelos vistos era costume ela passar naquele sítio àquela hora, pela cara do rapaz.

(Crónica publicada na VISÃO 1303, de 33 de fevereiro de 2018)