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Helena

O casal pediu dois pastéis, uma cerveja e um chá, e, em pouco tempo, começámos a conversar. O marido, mais falador, depressa explicou que viveu quase toda a sua vida em Angola e que os angolanos acompanham tudo com cerveja. Até os pastéis de nata!

D.R.

Já não íamos aos pastéis de Belém há anos, mas naquele domingo resolvemos arriscar a espera e competir com os turistas. Em menos tempo do que aquela longa fila fazia prever, lá arranjámos uma mesa na primeira salinha, com vista para a entrada. Passado pouco tempo, aproxima-se um casal grisalho, ele de passo firme e sorriso simpático, ela de aparência frágil, mas despachada na atitude, perguntando se podiam ocupar os dois lugares livres da nossa mesa. Claro que sim! Dissemos, contentes por poder evitar-lhes a dura espera.

O casal pediu dois pastéis, uma cerveja e um chá, e, em pouco tempo, começámos a conversar. O marido, mais falador, depressa explicou que viveu quase toda a sua vida em Angola e que os angolanos acompanham tudo com cerveja. Até os pastéis de nata! Era crítico de arte e historiador reformado. Interessado pela origem das coisas e dos seus nomes. Explicou que o pastel de nata vem do custard inglês que, durante a sua infância, se comia muito em Angola, por influência dos sul-africanos, com o nome aportuguesado “custarda”. Contou-nos a sua história, falou da sua horta e, sempre que vinha ao caso, elogiava a esposa com os olhos brilhantes e um orgulho indisfarçável.

Helena, com os dedos finos e cheios de anéis de prata, desenhava furiosamente no seu bloco, parecendo alheada da conversa, mas completando pontualmente o que nos contava o marido. Quando chegou o seu pastel, comeu rapidamente o recheio com a colher de chá, deixando a massa folhada para o fim, como as crianças. Fazia tudo como se quisesse voltar o mais depressa possível ao desenho, e desenhava com a rapidez e determinação de quem quer acabar rapidamente, para começar o próximo.

A certa altura, identificando o meu sotaque, diz-me apressadamente que também nasceu no Porto, nos anos 40, mas que foi com meses para Moçambique e depois para Angola. Só voltando para estudar Belas-Artes, antes de se casar e ir viver para a Alemanha, de onde voltou passado uns anos, novamente para África, na companhia do atual marido. Duas frases velozes e Helena tinha contado a sua vida de idas e vindas até Lisboa, onde está há mais de 30 anos, sempre a desenhar e a pintar. E eu achei bonito este casamento (improvável?) entre uma pintora e um crítico de arte, agradecendo a sorte de tê-los à nossa frente na mesa dos pastéis.

Tinham ido visitar a exposição do modernismo brasileiro no CCB, o que aliás passou a fazer todo o sentido, quando vimos as cores garridas de África e a redução da figura às linhas essenciais, nas telas de Helena, aparecidas no Google, na tela do telemóvel. E naquela conversa sobre a vida e a pintura, em três continentes, voámos de uma mesa cheia de migalhas de pastéis de nata, de volta ao Porto, a essa terra de mulheres despachadas, que fazem tudo como se tivessem todo o empenho e nenhuma paciência, para aterrar numa mesa do Café de São Lázaro, a dois passos da Faculdade de Belas-Artes.

O marido contou orgulhoso que, nesse café, havia um fresco (entretanto destruído e paradoxalmente substituído por uma fotografia) que foi pintado por um colega de Helena, retratando um grupo de amigos das Belas-Artes. “Se forem lá, disse-nos sorrindo, vão reconhecê-la imediatamente pela pose!” E carregou na palavra pose, com os olhos arregalados de orgulho e encantamento, condensando em quatro letras e um par de olhos apaixonados a atitude, a majestade e a graça da sua companheira. E naquela garantia de que, passados tantos anos ainda se lhe reconhece a altivez, demonstrou a solidez da sua devoção e que, pelo menos entre eles, os anos de facto não passaram.

Acabado o lanche, agradecendo pela mesa partilhada, Helena tira um embrulho vermelho da carteira para nos oferecer. Era um desenho, assinado e datado de 2018. Que sorte! Ficámos felizes e agradecemos pelo presente, mas sobretudo pela companhia. Ainda bem que fizemos fila nos pastéis.