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Da arqueologia sindical

Se há coisa que sabemos é que a natureza do trabalho vai mudar profundamente nas próximas décadas

Está mais que visto que os sindicatos afetos ao PCP, cada vez mais donos de um partido maltratado nas últimas autárquicas, vão finalmente esticar a corda da geringonça. Vão esticá-la na sua cruzada contra a flexibilidade laboral, vão esticá-la na sua defesa da contratação coletiva, vão esticá-la na defesa de mais pagamento de indemnizações e horas extraordinárias, vão esticá-la pedindo mais férias para todos.

Fazem mal.

Digo-o, desde logo, por uma questão de princípio. Reconheço que entre patrões e trabalhadores há, muitas vezes, uma relação desigual que é necessário regular. Mas não consigo aceitar a visão do patronato à la Revolução Industrial que continua subjacente à ideia de que devem ser garantidos empregos para a vida. Onde a CGTP e o PCP veem patrões novecentistas, eu vejo, não poucas vezes, empresários que arriscam fortunas, empreendedores que saltam das garagens para o mundo, empresas que percebem que a sua sobrevivência passa pela capacidade de atrair e reter o melhor talento. E não percebo 
por que raio tenho de pedir-lhes para casar para a vida com todos e cada um dos seus empregados.

Se acompanho a esquerda na ideia de criar incentivos fiscais para combater a precariedade, se (num assomo perigoso) vou além do que o próprio PS está disposto a ceder, e defendo maiores indemnizações para os despedimentos (sobretudo para defender os mais velhos e com mais dificuldades para reentrar no mercado de trabalho), na volta do correio reclamo naturalmente uma muito maior 
liberalização dos despedimentos.

Digo-o também por uma razão de justiça. É sabido que a rigidez laboral cria um enorme fosso entre empregados e desempregados. Os empresários hesitam, ponderam duas e três vezes antes de criar um posto de trabalho que sabem ser responsabilidade eterna. A rigidez protege os que estão dentro do sistema, mas cria muito mais dificuldade de acesso a todos os que, por uma razão ou por outra, deles se veem excluídos. O problema, bem entendido, é que os sindicatos representam empregados, não representam desempregados.

Digo-o também, embora ça va sans dire, por razões económicas. 
A flexibilidade rima naturalmente com a criação de condições para arriscar, a rigidez é inimiga da inovação e da competitividade.

Mas digo-o, acima de tudo, porque esta discussão é sobre um mundo que não é o de hoje. Se há coisa que sabemos é que a natureza do trabalho vai mudar profundamente nas próximas décadas. Se há coisa que sabemos é que as competências que temos não são aquelas de que vamos precisar num futuro próximo. Sabemos que teremos, muito em breve, saberes ultrapassados. Sabemos que não treinamos a nossa capacidade de adaptação, a nossa resiliência ou a nossa criatividade. Sabemos que não temos vislumbre de um sistema de aprendizagem ao longo da vida. Sabemos que vamos ter de lidar com as consequências da robotização, da inteligência artificial, de uma sociedade cada vez mais em rede, de um mundo laboral onde a empresa, tal como hoje a conhecemos, pode deixar de ocupar um lugar central. Quem, no mundo sindical, está a pensar sobre tudo isto?

Há muito tempo que não tenho dúvidas que temos sindicatos parados no tempo. Que olhem para o mundo da quarta revolução industrial com olhos e cabeças da primeira, eis um pormenor sobre o qual talvez 
devessem parar para refletir.

(Artigo publicado na VISÃO 1302, de 15 de fevereiro de 2018)