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Carta a todos os sportinguistas menos um

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O que está em jogo não é a direção do Sporting, é a liberdade de imprensa. Não é tomar partido contra ou a favor de BdC mas sim a favor da democracia e do Estado de Direito

Meus Caros Amigos Sportinguistas,

A última Assembleia Geral do vosso clube, o Sporting Clube de Portugal, foi uma declaração de guerra à liberdade de imprensa e à democracia.

Não se pode ignorar, nem se deve menorizar, o apelo público feito pelo presidente Bruno de Carvalho (BdC) para que os sportinguistas não comprem jornais desportivos e não vejam quaisquer canais de televisão (excepto a Sporting TV!), bem como a recomendação a todos os sportinguistas para que abandonem os lugares de comentadores em rádios e televisões.

Bem sei que em Portugal não temos o hábito de defendermos nós próprios, nas grandes declarações e no mero dia-a-dia, a liberdade de imprensa. O exemplo (mau) vem de cima, dos próprios tribunais, que tantas vezes desprezam e maltratam a liberdade de imprensa e os direitos de informar e de ser informado. Por isso mesmo o Estado português tem sido condenado múltiplas vezes no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

Ao contrário do que acontece na América do Norte, a nossa tradição não nos faz defender a informação e os jornalistas (ainda que não gostemos de parte do que escrevem ou dizem). É mais português o encolher de ombros: “eles que se defendam”; “estão bem uns para os outros”; ou mesmo “só querem é vender papel!”…

A verdade é que “eles” não podem defender-se sozinhos, não estão bem uns para os outros e não se trata de vender seja o que for. Trata-se de afirmar sem hesitação e sem margem para qualquer dúvida ou desvio o direito fundamental à informação. E trata-se também de evitar a censura prévia, venha ela de onde vier.

É certo que podíamos dizer que isto é apenas futebol… Mas não é. “Isto” é sobre a importância de, como comunidade e como pessoas, protegermos uma coisa sem a qual a democracia não existe. É sobre percebermos que devemos ser os primeiros a defender os valores fundamentais da nossa vida em sociedade. É que se não os considerarmos fundamentais e se não os defendermos nós próprios, individualmente, no nosso dia-a-dia, corremos o sério risco de amanhã esses valores e esses direitos já não serem fundamentais e depois de amanhã já não existirem.

Compreendo que alguns de vocês sejam apoiantes de Bruno de Carvalho (ou mesmo que, não o sendo, não tenham alternativa a ele), entendo que outros não queiram incompatibilizar-se com esta direção. Aceito mesmo que muitos não estejam dispostos a serem criticados, ou mesmo insultados, por exprimirem uma posição diferente das orientações oficiais da Assembleia Geral, intuo que alguns (muitos) estão mesmo envergonhados com a atitude de BdC.

O que está em jogo não é a direção do Sporting, é a liberdade de imprensa. Não é tomar partido contra ou a favor de BdC mas sim a favor da democracia e do Estado de Direito. O que vos queria dizer era só isto. Porque entendo que depois daquela Assembleia Geral, perante o País, quem deve falar, escrever, responder seja de que forma for, são os sportinguistas.

Todos os que têm consciência da importância da imprensa e da informação não podem abster-se. Sejam a favor de um País adulto, maduro e responsável. Afirmem a vossa liberdade de escolher a liberdade de informação. Mostrem ao país que BdC não é o Sporting e mostrem a BdC que o Sporting são vocês.

E a liberdade de imprensa.

#escolholiberdadedeinformação