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Tiago Freire

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Tiago Freire

DIRETOR DA EXAME

Bolsas em queda? É bom sinal

Kelly Shimoda

O movimento de descidas nas bolsas é um sinal de que os investidores não são totalmente irracionais e estão finalmente a incorporar nas suas decisões os vários fatores que vão influenciar o valor futuro dos seus ativos.

E, de repente, as coisas mudaram. Depois de meses e anos de máximos sucessivos nos mercados acionistas, com os EUA à cabeça, veio um mini-crash, destruindo milhares de milhões de dólares de valor em poucos dias. Para além das manchetes e dos avisos de ‘breaking news’ dos canais especializados, há muitas coisas positivas a tirar desta súbita quebra.

O centro de tudo está nos EUA, cujo mercado de capitais continua a ditar o rumo das bolsas de todo o mundo. A América pode estar a perder terreno entre as maiores economias do mundo, mas Wall Street é, ainda, o farol dos mercados. Aí, basta ver o que tem acontecido com o mercado de ações. E o que tem acontecido são subidas sucessivas e uma clara desvalorização dos riscos.

O otimismo alicerçou-se genericamente na expetativa face ao plano fiscal do presidente Trump, com corte de impostos para as grandes empresas e o aumento do rendimento disponível para boa parte do segmento mais endinheirado do país. Antes de o plano ser anunciado, já as ações estavam ao rubro, e assim continuaram depois. É claro que este pacote vai penalizar fortemente as contas públicas dos EUA, mas os investidores estavam pouco preocupados com isso, e assim continuam.

As avaliações das ações foram subido consecutivamente, apesar dos avisos de que todas as boas notícias estavam já descontadas nos preços e que, a partir de um determinado nível, comprar era apostar num luminoso desconhecido.

A insensibilidade dos investidores às más notícias e aos sinais de alerta é ainda mais eloquente quando voltamos uns meses atrás, aos episódios mais quentes da retórica entre Trump e a Coreia do Norte. Enquanto os dois países se ameaçavam mutuamente com uma guerra nuclear, cuja destruição física apresentava um potencial razoável de destruir também economias e a riqueza de empresas e indivíduos, Wall Street assobiava para o lado, e continuava em frente. Se há momentos em que os mercados valorizam excessivamente as más notícias, também o contrário sucede: não importa o que vai ardendo à volta, se a grande maioria dos investidores continuar a comprar, é como se nada se passasse.

A este desprezo pelos sinais de alerta juntam-se coisas mais fundamentais, ligadas à economia norte-americana. Trump apanhou a onda construída progressivamente por Obama, e o crescimento é forte, bem como a criação de emprego. Isto são boas notícias, menos para os mercados. Isto porque a recuperação das bolsas foi ajudada pelo ‘doping’ da Reserva Federal norte-americana, que ajudou o país a sair da crise, e depois por taxas de juro muito baixas. Estas tornam as obrigações menos atrativas – levando investimento para as ações – e mantém baixos os custos do crédito, de empresas e particulares. O que sucede é que, com a normalização e até a exuberância da economia, as taxas de juro têm de começar a subir, para travar a inflação e impedir um sobreaquecimento económico, que de seguida poderia dar origem a nova crise económica.

A arte da política de juros dos bancos centrais é difícil e subtil, porque procuram um determinado equilíbrio, um ponto óptimo no crescimento económico. Isto significa que tendem a tentar arrefecer uma economia antes de o seu sobreaquecimento ser evidente, ou depois seria demasiado tarde. Com a política de estímulos e de baixas taxas de juro, o movimento de saída da crise foi bem sucedido, mas a Reserva Federal tenta compensar os efeitos desse grande impulso para que ele não vá longe demais. Ninguém sobe taxas de juro em período de crise ou de dificuldades, pelo que este movimento da Fed é, na verdade, um sinal de normalização e de confiança na economia. A médio prazo, se a estratégia correr bem, será melhor para toda a gente. No curto prazo, pode estragar a louca festa nos mercados de ações.

Apesar do caráter súbito destas quedas, a correção em baixa é normal e até salutar. Basta ver que um indicador que mede os preços das ações face aos lucros ciclicamente ajustados subiu duas vezes acima da média do último século. Isso só tinha acontecido duas vezes: nos anos 20, no período que antecedeu a Grande Depressão; e na viragem do século, aquando da bolha das dot.com. Os sinais estavam lá, mas ninguém quis ser o primeiro a acabar com a festa.

As valorizações foram tão fortes que praticamente todos aqueles que estão agora a vender conseguem, ainda assim, ganhar muito dinheiro. Com tamanhas mais-valias à mão de semear, muitos investidores aproveitaram estes sinais de inversão para vender, recheando as carteiras.

Há ainda um fator por contar nestas súbitas quedas, que é o papel das máquinas. Um volume cada vez mais significativo é negociado através de programas algorítmicos, com pouca ou nenhuma intervenção humana. As máquinas estão programadas para agir e “pensar” de forma semelhante, o que tende a ampliar movimentos, sobretudo de queda. Uma forte descida provoca ordens automáticas de venda, que levam a novas descidas e novas ordens automáticas, e por aí adiante.

Nesta terça-feira, os futuros dos mercados americanos indiciam uma estabilização, mas só daqui a uns dias se perceberá se esta saída “em manada” das ações vai continuar ou se esgotou nesta violenta mas normal correção.

Seja como for, o movimento é um sinal de que os investidores não são totalmente irracionais e estão finalmente a incorporar nas suas decisões os vários fatores que vão influenciar o valor futuro dos seus ativos. Se o movimento não escalar, esta correção é saudável e pode impedir crashes mais duros – e com efeitos mais perversos sobre a economia real – no futuro.