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Velho para ser novo e novo para ser velho

Parece que estou a chegar aos 40 anos e começam a acontecer coisas que nunca tinham acontecido antes. Dores nas costas. Mau. O que é que se segue?

D.R.

Na semana passada estava deitado no sofá, mal deitado, meio desapoiado, e virei-me para pôr a chupeta à minha filha. Estiquei-me todo como se tivesse 38 anos. Não tenho, pelo vistos tenho 39 e, à vinda, ao recolher à posição original, deu-me um estalo aqui na zona do lombo que fiquei sem me conseguir mexer durante meia hora.

Mas mesmo. Não me conseguia levantar, não me conseguia manter na vertical, arrastei-me em ângulo reto pela casa, como aquelas pessoas muito velhas cujas costas cedem à gravidade da terra, quando esta lhes começa a reclamar o corpo de volta. Ando com dores nas costas desde então. Nunca na vida tinha tido dores nas costas. As costas, para mim, eram, até há uma semana, como o cabelo ou as unhas, uma parte do corpo das que não doem, das que não se sentem. Parece que estou a chegar aos 40 anos e começam a acontecer coisas que nunca tinham acontecido antes. Dores nas costas. Mau. O que é que se segue? Dou por mim e tenho três filhos, quase 40 anos e agora o tempo passa de gás. O que é que me vai acontecer a seguir? Vou começar a dizer mal os nomes das bandas? A trocar a flexão de número dos substantivos e a dizer os Metallicas, os Rollings Stone e os Nirvanas? A dizer Maique iéguer? A mandar guarda-chuvas e sapatos para arranjar? A andar de guarda-chuva? A andar de sapatos? Cada vez que apanhar um filho meu a beber um copo de água vou dizer coisas do tipo “isso, bebe muita aguinha que faz bem, hidrata, deve-se beber no mínimo um litro por dia”? Cada vez que estiver num casamento e der o Sweet Child O’Mine vou-me reunir em rebanho de roda com o pessoal da pesada, do meu tempo, de gravata na cabeça e fazer Air Guitar com uma mão e a equilibrar um balão de Old Parr na outra? Jesus. Os sinais são de alarme. Já dou por mim a ir correr, preocupado com questões como “boas palmilhas” e “calçado próprio para asfalto”. Os meus amigos e eu ainda falamos sobre discos, mas são os que se ouvem a estalar nas colunas vertebrais, não os que se ouvem nas colunas da estereofonia. Olha, disse estereofonia. Por falar em aparelhagens (será que ainda se diz aparelhagem?), já começo a não saber pôr as coisas a funcionar, já sou um avô a tentar meter uma cassete de vídeo. Já preciso de um sobrinho à mão. Perdi-me na curva da tecnologia por alturas do Windows 95. Eu, logo eu, que cheguei a programar o gravador de vídeo apontando o comando a uns códigos de barras que vinham na tv guia, junto ao programa que se queria gravar automaticamente. Ainda ontem era eu o sobrinho. Agora já não sei quem são os atores. Já não sei pronunciar os nomes dos atores. Vou começar a dizer Jéque Nicólson e Merlin Monrói? A tomar aspirina? A dizer “vou ao Porto” de cada vez que tiver de ir à baixa? A andar com lenços de pano? Cada vez que me aparece um formulário online e é para meter a data de nascimento, 1978 aparece cada vez mais lá para baixo, muito lá para baixo. São quase 40 cliques na setinha para baixo. Ainda no ano passado era eu da nova geração da música portuguesa, jovem isto, jovem aquilo, promessa de não-sei-quê. Sem dores nas costas mas já sem saber exatamente se One Direction se diz One Deerection ou One Dáirection.

Começaram por ser os jogadores de futebol a serem da mesma idade do que eu. Onde já vão os jogadores de futebol. Só no ano passado conheci dois presidentes de Câmara mais novos do que eu. Como é que se diz Kanye West? Não sei mas isso agora não interessa. Recuso-me. Vou à farmácia comprar algum antioxidante, Omega 3, creme de leite de burra, o que tiver de ser. Como não está a chover aproveitava e ia a pé, que assim sempre me mexia um bocadinho, só não sei é onde é que pus o raio do anoraque e com o barbeiro que está ainda me dá alguma macacoa.

(Crónica publicada na visão 1299 de 25 de janeiro)