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É sempre incrível quando os amigos têm filhos. São novos amigos que nascem, porque os pequeninos se tornam nossos amigos, mas também porque os amigos de sempre se tornam novas pessoas

Uma das coisas mais lindas dos últimos anos foi ter ganho uma afilhada. Uma menina por nascer e dois amigos queridos a perguntar se eu queria ser madrinha. Aquela carta bonita, entregue a meio do jantar, abriu-me sorriso que eu não sabia que tinha.

Fiquei feliz. Era uma versão nova de mim por descobrir, uma amizade que escolhia oficializar-se em parentesco e uma família inteira, que com a menina, somava amor e encontrava novos pretextos para ficarmos todos mais perto.

É sempre incrível quando os amigos têm filhos. São novos amigos que nascem, porque os pequeninos se tornam nossos amigos, mas também porque os amigos de sempre se tornam novas pessoas, com novas dimensões a descobrir. É lindo ver como crescem (os pequenos em altura e os grandes como pessoas), como têm medo e amor ao mesmo tempo, como escolhem educar e moldar-se como exemplo e, sobretudo, como se embevecem.

Claro que às vezes, perdemos os amigos para os filhos e há quem desapareça da nossa vida ao primeiro choro de bebé. Como se a assoberbante vida nova esvaziasse tudo o resto de importância relativa e a nova função, dando um novo sentido à existência (e um cansaço permanente), ocupasse todo o tempo e todo o espaço. Não quero julgar, não posso imaginar como será, mas fico triste.

Felizmente acontece pouco. E que bom é acompanhar os amigos nesta aventura e ir descobrindo as pequenas pessoas que se vão definindo, perceber as suas preferências, os traços de personalidade, o sentido de humor. Descobrir os nossos amigos neles, pelo que se parecem e pelo que foi sendo lapidado. E desejar que, no futuro, possam gostar de mim como eu gosto dos amigos dos meus pais.

Os Surpresa, como se chamam a si próprios, são os amigos do tempo da faculdade, os amigos que paravam no Café Surpresa (na Rua do Breyner) e que, das esquerdas e da juventude, ficaram. As suas conversas são as minhas conversas favoritas e a sua amizade é uma lição de longevidade. Acabaram os cursos, a militância deixou de fazer sentido, a vida adulta foi-se instalando definitivamente, alguns deixaram o Porto, os filhos vieram, a vida foi seguindo o seu curso e eles continuaram sempre juntos. Nas jantaradas. Nas gargalhadas. Sempre juntos.

E eu que sempre fui notívaga, ficava (desde muito pequena) a ouvi-los conversar até às duas da manhã. No tempo em que se levavam as crianças para todo o lado, em que se amamentava em público tranquilamente, em que, nos jantares e nas festas, havia sempre uma cama ou um sofá com duas ou três crianças a dormir, enquanto os pais (relaxados) continuavam a conviver, e em que ninguém ia embora cedo.

Os Surpresa sempre foram os mais fixes, e acho que isso de terem um nome próprio é só uma das provas disso mesmo. Ora hoje, como desde sempre, adoro ficar a ouvi-los conversar e, ainda que aconteça menos vezes porque normalmente trabalho ao fim de semana, quando sei que há jantarada, fico com pena de não passar o serão a ouvir as histórias do tempo da faculdade (como a do Vítor, que quando acabava a curta mesada, passava os dias a dormir e a comer as malgas de marmelada enviadas pela mãe para enganar a fome), ou as do dia-a-dia (como aquela em que a Bé decidiu propor aos Mórmons que lhe tocavam à porta que lhe ensinassem inglês, em troca de tempo de antena para as suas tentativas de evangelização), ou para ouvi-los falar de política, de filmes, de livros e agora também dos netos.

Tão lindo como os amigos que se tornam pais, são os amigos (que por serem dos meus pais são meus também) que se vão tornando avós. Que os netos não lhes roubem o tempo para as jantaradas e que possam ouvir as suas conversas. É que assim seremos cada vez mais, os amigos e as surpresas!