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Anos zero

Só em 1997 é que uma pessoa olha e diz “meu Deus, estes cabelos”. E assim é, desde que eu me lembro de olhar para fotografias

Vi recentemente uma fotografia que me atirou para um certo estado meditativo durante dias. A fotografia era absolutamente normal, não tinha nada de particular que a destacasse de outra fotografia qualquer. Era uma fotografia de grupo, um “retrato de família”. Dezenas de pessoas anuindo ao providencial e vigoroso “sorriam” que o fotografo há de ter soltado no clique. Talvez estas pessoas todas pertencessem a um grupo de trabalho, a uma empresa, talvez fosse aniversário de alguém, ou da própria empresa, certo parecia tratar-se de alguma efeméride que justificava a reunião, os sorrisos, a indumentária “casual chic”. Os sorrisos eram os normais, os normalizados, os que se esperam destes certames corporativos. As roupas eram as normais, os blazers e as gravatas, os penteados, as camisas, os sapatos, as t-shirts dos menos afeitos à ideia de uniforme. E foi precisamente essa normalidade discreta que me chamou a atenção, por um singelo mas fundamental pormenor: em baixo da fotografia vinha a data: 19-04-2007. Ainda pisquei os olhos a ver onde andaria o 1 que precede o 7. Mas não, a fotografia era mesmo de 2007 e não de 2017, como aparentava em absolutamente tudo.

A fotografia era de há 10 anos. A qualidade de revelação de imagem, as cores, a moldura, as roupas, os penteados, os sapatos e as t-shirts dos menos afeitos à ideia de uniforme: podia ter sido tirado nessa manhã. Não que esse pormenor carregue em si qualquer princípio moral: isso não é nem bom, nem mau, é simplesmente uma das coisas em que eu eu reparo e nas quais fico a pensar. Desde que a fotografia se convencionou e se banalizou no uso doméstico, familiar, que uma pessoa se habituou a ver o tempo passar através dos retratos de família. As modas, as tendências, a estética, são tudo pequenos maneirismos que se vão infiltrando no dia a dia sem que uma pessoa repare. Esses códigos vão se renovando como a pele de um réptil: por camadas, sem que se dê conta. É através das fotografias como aquela que deu origem a esta crónica que uma pessoa vai medindo o pulso ao passar do tempo. Quando a minha irmã aparece com um penteado à 1987 numa fotografia de 1987, esse penteado não se autoafirma como coisa estranha. Só em 1997 é que uma pessoa olha e diz “meu Deus, estes cabelos”. E assim é, desde que eu me lembro de olhar para fotografias.

É completamente impossível uma fotografia de 1967 passar por 1957. Não só pelas modas e pelos penteados, mas pela tecnologia em si: o aspeto da revelação é diferente. O que é que aconteceu no mundo entre 1965 e 1969? Do Hard Days Night às barbas do Abbey Road? Da Jaqueline Kennedy a preto e branco ao Jimi Hendrix em Woodstock? Quem sou eu para enfiar o que quer que tenha acontecido dentro duma casca de noz, mas sei que essa explosão chegou a Águas Santas e ao formato das calças dos magricelas boca-de-sino das fotografias da minha família. Uma imagem de 1977 nunca, por ocasião alguma, poderia ser confundida com uma imagem de 1967. As permanentes, os chumaços e as cores garridas e “futuristas” de 1987 de uma fotografia da minha família nunca passariam pelo ambiente mais PREC, mais carregado a castanhos e cinzentos que caracterizou o ano de 1977. Lembro-me de ver, num daqueles programas de entretenimento vespertino que passam diariamente nos Estados Unidos, uma partida pregada aos transeuntes. O apresentador e respetiva equipa foram para a rua mostrar às pessoas o novíssimo iPhone (julgo que o 7), quando na realidade o que mostravam era o primeiro, o jurássico, iPhone 1. Toda a gente acreditou, naturalmente. Onde é que algum transeunte de 1989 se deixaria enganar com qualquer gadget de 1982 que se quisesse fazer passar por novidade? Nunca na vida. E os de 2007 a sorrir para a fotografia. Como é que eles se vão vestir nas festas “remember the 80s” e “Revenge of the 90s” do tempo deles?

(Crónica publicada na VISÃO 1297 de 11 de janeiro)