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O reino da virtude

E o pão, senhores, e o pão? Que destinar ao mais bíblico de todos os alimentos? Sosseguem ignaros. Está tudo previsto

1 - Em 1495, um padre dominicano acordou, certa manhã, a pensar que era a voz de Deus. Não fazia a coisa por menos. Vai daí declara que Florença seria, doravante, uma “nova Jerusalém”, lançando-se (e com ele toda a cidade) numa limpeza puritana sem piedade nem quartel. Célebres ficaram as suas “fogueiras das vaidades” em que terão sido queimadas várias obras de desnecessário e pecaminoso luxo de Ovídio, Dante, Boccaccio e de mais uma série de perigosos degenerados.

2 - Alguns anos mais tarde, na Paris revolucionária, um rapaz que dava pelo nome de Maximiliano meteu na cabeça a ideia de substituir “todos os vícios e todos os ridículos da monarquia por todas as virtudes e todos os milagres da república”. Não alguns, não a maioria. Todos são todos.

3 - Lisboa, ano de graça de 2017. O reino da virtude chega finalmente aos “bares, cafetarias e bufetes das instituições do SNS”. Na ausência – notória – de exemplares das obras de Ovídio nas máquinas de venda automática, a ira (justa, justíssima) vira-se, aggiornata, contra os “rissóis, croquetes, empadas, chamuças, pastéis de massa tenra, frigideiras, pastéis de bacalhau, folhados salgados e produtos afins”. Não mais médicos, enfermeiros, auxiliares ou visitas provarão a natureza imoral de “bolos ou pastéis com massa folhada e/ou com creme e/ou cobertura, como palmiers, jesuítas, mil-folhas, bola de berlim, donuts, folhados doces, croissants ou bolos tipo queque” (reparem na profunda coerência histórica da perseguição a jesuítas e queques). Não mais se deleitarão, pecaminosos, com “bolachas tipo belgas, biscoitos de manteiga, bolachas com pepitas de chocolate, bolachas de chocolate, bolachas recheadas com creme, bolachas com cobertura”. Nunca mais se saciarão na fonte bíblica de todos os pecados, que é como quem diz as “bebidas com cola, com extrato de chá, refrigerantes de fruta sem gás, refrigerantes de fruta com gás, águas aromatizadas, preparados de refrigerantes, refrescos em pó ou bebidas energéticas”. Esconjurem-se também, já que aqui estamos, “barritas de cereais e monodoses de cereais de pequeno-almoço, (...) os hambúrgueres, cachorros quentes, pizas e lasanhas” e outras obras do mafarrico.

Mas não basta reduzir a cinzas esta vergonhosa Sodoma que eram os bufetes do SNS. No seu lugar, uma nova Jerusalém de alimentar virtude erguer-se-á antes do fim dos tempos. Para garanti-lo, doravante os contratos “devem contemplar a disponibilização obrigatória de água potável gratuita (...) de leite simples meio-gordo/magro, (...) queijos curados ou frescos e requeijão, sumos de fruta e/ou vegetais naturais, bebidas que contenham pelo menos 50% de fruta e/ou hortícolas e monodoses de fruta”.

E o pão, senhores, e o pão? Que destinar ao mais bíblico de todos os alimentos? Sosseguem ignaros. Está tudo previsto. “Ao pão, referido na alínea e) do número anterior, devem ser privilegiados os seguintes recheios: queijo meio-gordo/magro, fiambre com baixo teor de gordura e sal e de preferência de aves, carnes brancas cozidas, assadas ou grelhadas, atum (de preferência conservado em água) ou outros peixes de conserva com baixo teor de sal, ovo cozido; o pão deve ser preferencialmente acompanhado com produtos hortícolas, como por exemplo alface, tomate, cenoura ralada.”

4 - Girolamo (era assim que se chamava o padre) acabou enforcado. Maximiliano perdeu (literalmente) a cabeça.

(Crónica publicada na VISÃO 1296 de 4 de janeiro)