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O Fim do Álbum 2/2

O próprio Spotify organiza a música por “estados de espírito”. “Música para começar bem o dia”, “Música para jantar à luz da vela”, e todo um conjunto de moods parecem querer apontar uma tendência clara

Lucília Monteiro

Em 2012 ofereci os meus CD todos. Centenas deles, encaixotados há anos. Andavam há já algumas mudanças de casa em caixotes por abrir. Não é que eu tivesse deixado de ouvir música. Discretamente, aos poucos, sem dramas, a pequena rodela de plástico foi deixando de fazer parte dos meus hábitos de audição musical. E não tinha mal nenhum, ouvia agora os meus álbuns de forma legal, prática, paga, ecológica, ergonómica e móvel. Tudo certo. Mas o que nessa altura me parecia uma simples mudança no formato (eu ouço música, essencialmente, a partir do telemóvel, através do Spotify), acabou por se revelar numa mudança mais profunda. Fui deixando, com o tempo, de ouvir álbuns. Toda a minha vida tinha catalogado a música de que gosto por álbuns. Sei os anos dos álbuns de que gosto, sei que músicas vêm em cada um deles, organizo, na minha cabeça, as fases dos artistas e bandas que eu mais gosto através dessa medida: o álbum. Na minha cabeça, ia julgando os lançamentos da obra artística de determinado artista pelo álbum mais recente. Andava com os álbuns no carro, na aparelhagem.

Nunca reconheci estatuto a coletâneas ou afins e sempre me incomodou ter que comprar um “Greatest Hits” ou um “Best Of” por incluir um inédito ou uma raridade, sempre achei isso uma ratice, um chico-espertismo de editora. Dito isto, nunca pensei que a minha migração gradual e natural para o streaming pudesse trazer alguma mudança a este meu modo de organizar a minha música. Mas a verdade é que já não ouço álbuns. Já não sei de que ano é ou em que álbum está esta ou aquela canção solta. Mais: sempre que sai um álbum de um músico que eu gosto resisto a ouvi-lo, porque, de repente, 14 ou 15 músicas de uma vez parece-me informação a mais para o meu short attention span, usando um termo moderno para diagnosticar uma epidemia que aparentemente grassa pelos nossos incautos jovens cibernautas. Sofro disso, admito, e não sei qual das 12 ou 14 músicas hei de escolher.

Às vezes pedem-me, em entrevistas, para sugerir um álbum que tenha andado a ouvir e a verdade é que fico sempre sem resposta. Eu agora ouço “listas”. Feitas por mim. E dou por mim a pensar que, na história da música popular gravada, o conceito de “álbum” popularizou-se mais por uma questão de conveniência comercial e mercantilista do que propriamente por uma questão artística. A história da música que eu gosto é feita de grandes canções, e não de grandes álbuns. De grandes escritores de canções, não de grandes escritores de álbuns. Só passado umas décadas é que apareceram os primeiros álbuns conceptuais, os primeiros álbuns artísticos, e mesmo esses são raros.

Dizem que a “era do álbum” começou com o Sgt Pepper. Mas mesmo os Beatles são muito mais de canções do que de longas-durações. Para começar, Hey Jude, She Loves You, Day Tripper, Penny Lane, Strawberry Fields e mais algumas dezenas das grandes canções dos quatro de Liverpool não vêm em qualquer um dos álbuns lançados pela banda. Lembro-me de o George Harrison, numa entrevista acerca de uma qualquer canção, não saber dizer ao certo em que LP dos Beatles é que ela foi lançada. Dylan igual, nunca sabe dizer de que álbum é que é certa canção de que lhe falam. Porque a grande maioria dos álbuns são uma conveniência contratual, comercial. Durante quase toda a minha vida de fã obsessivo de música eram a norma, da qual não se podia fugir. Era assim e ponto final. Mas quer-me parecer que a era do álbum está a chegar ao fim. O próprio Spotify organiza a música por “estados de espírito”. “Música para começar bem o dia”, “Música para jantar à luz da vela”, e todo um conjunto de moods que, por mais deprimentes que possam parecer a um fã de música, parecem querer apontar uma tendência clara. Mas quem sou eu para vaticinar os caminhos do mundo. Eu falo por mim: já não ouço álbuns. “Álbum”, enquanto padrão de medida, passa a figurar junto da jarda, da onça e do escudo: são medidas que já não uso.