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Resoluções

Chegados à hora certa, lá nos abraçámos muito, fizemos os nossos votos de felicidade alheia e listámos para dentro alguns desejos e resoluções

Na noite de 31 de dezembro de 2016, estava com menos de meia dúzia de amigos do peito, numa pequena casa de campo, algures na Catalunha rural, à frente de uma lareira a jogar Dixit, enquanto a pequena Clara (a única criança no grupo) ia fazendo as birras da chamada bebedeira-do-sono (só equivalente ao mau-vinho daqueles borrachões que oferecem porrada a toda a gente).

Eu também não gosto de passagens de ano. A única diferença é que, se eu começar a chorar e a bater com os pés no chão, o mais provável é passar a meia-noite sozinha, porque nem a minha mãe me vai querer aturar. (Isto de ter dez vezes mais anos que a Clarinha acarreta uma óbvia necessidade de contenção, o que aliás é uma pena.)

Estávamos nós prestes a ouvir as doze badaladas e lá fomos organizando os montinhos de uvas (passas para quem prefere a tradição portuguesa e frescas para os restantes ibéricos). Chegados à hora certa, lá nos abraçámos muito, fizemos os nossos votos de felicidade alheia e listámos para dentro alguns desejos e resoluções.

Passada aquela euforia artificial, em dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um, engolimos as uvas de uma assentada para fazer cumprir os desejos e ganhar combustível para a concretização das resoluções. Ora, foi nessa hora, com o ímpeto de quem estreia um calendário, que estabeleci dois grandes desafios para 2017: ser mais descontraída em relação a tudo (ao estilo Azucar Moreno – “solo se vive una vez”) e fazer exercício físico regular e consistentemente.

Nos primeiros dias foi fácil. Fizemos caminhadas nos bosques gelados, com os Pirenéus ao fundo. Ouvimos a crocância das folhas secas debaixo dos passos. Carregámos a Clarinha às cavalitas e cantámos o “indo eu, indo eu, a caminho de Viseu”. Parecia tudo fácil. 4G desligado. Vida frugal. Nada a franzir sobrolhos.

Claro que passadas as miniférias aconteceu janeiro, depois fevereiro, março e abril. Maio foi um mês de cão. Junho e julho passei-os na estrada, de palco em palco, com um problema na cervical e a levar injeções. Agosto foi mais calmo, deu para tirar uns dias, ir à praia, visitar uns amigos, tentar derreter as contraturas ao sol e carregar baterias no mar. Setembro trouxe mais trabalho, e muitos concertos felizmente. E já se sabe que só começou a abrandar no outono (quando pude tirar férias do email e sem culpa de não atender o telefone). Se a segunda-feira é o fim de semana dos músicos, que o outono seja o nosso verão! Resumindo, 2017 foi, felizmente, um ano de muito trabalho e cheio de momentos intensos e, sobre as tais resoluções, posso dizer que cumpri parcialmente a primeira e falhei redondamente na segunda.

Para cumprir o objetivo de ser menos stressada, menos control freak, menos obstinada e menos séria com a vida em geral, tentei gerir melhor o volume de trabalho, para estar menos assoberbada e poder usufruir dos dias. Consegui em algumas fases do ano, noutras não. Tentei não atender telefones a partir de certa hora. Tentei ter pelo menos um dia de folga por semana. Tentei dizer que não mais vezes, para abrir clareiras na agenda. Tentei viajar mais. Ler mais. Estar mais com as pessoas de quem gosto. Em suma, tentei recuperar a leveza das coisas, levando tudo menos a sério, praguejando menos com coisas pouco importantes, sendo mais YOLO (e era aqui que entrava uma foto minha a fazer corninhos com as mãos, de língua de fora e um piercing no nariz).

O senão desta bela resolução foi ter cultivado o hedonismo ao ponto de boicotar a segunda. Claro que para ter mais tempo livre, sem prejudicar a eficiência e as responsabilidades, ia penalizar alguma coisa. Os dias não esticam e há que dormir oito horas, senão quem sofre é o mundo. Portanto, dane-se! Hoje não vou ao ginásio!! E foi assim...

O quê? Já passou um ano?!?!