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O fim do Álbum (1/2)

Centenas de CDs, uma vida a colecionar música. Tudo em caixotes. Tralha, a verdade era essa. Fui obrigado a reconhecer. Não havia maneira de convencer a minha mulher de que um dia aquilo tudo haveria de ser absolutamente necessário

Entre 2009 e 2012 mudei 3 vezes de casa. Andei com as trouxas para trás e para a frente mais do que desejaria a quem estimo. Coisas em caixotes, tralha, muita tralha que uma pessoa vai arrastando de paradeiro em paradeiro e que se vai renovando, como organismo vivo que é. Há coisas que se juntam e engrossam a montureira, outras que se despegam e vão ficando pelo caminho. Foi na terceira mudança que a minha mulher me obrigou a reconhecer que havia um conjunto de caixotes que se mantinha fechado desde a primeira de todas as mudanças. O nosso acordo era simples, tudo o que se mantinha arquivado em caixotes selados há mais do que uma mudança é porque era desnecessário, era sucata.

Foi assim que eu fui obrigado a reconhecer que já não abria os caixotes dos CDs há anos. Centenas e centenas de CDs acumulados desde os tempos da Rolls Rock, no Dallas, da Peggy, no Brasília, da On-of do Euromarché. CDs que me tinham sido dados a ouvir ao balcão da Tubitek. CDs que eu tinha mandado vir da CDNOW, já nos tempos da insidiosa internet. Discografias completas, edições especiais. Um EP raríssimo dos Metallica chamado Creeping Death/Jump in the Fire, que tinha a Blitzkrieg (eu não conhecia nem conheço até hoje mais ninguém que tivesse isso em CD). Centenas de CDs, uma vida a colecionar música. Tudo em caixotes. Tralha, a verdade era essa. Fui obrigado a reconhecer. Não havia maneira de convencer a minha mulher de que um dia aquilo tudo haveria de ser absolutamente necessário. Não ia.

A minha mulher é quem me vai ensinando a ser uma pessoa minimamente decente. Acumular tralha vai contra aquilo que eu considero um processo de ascese fundamental a qualquer alma que ambiciona um mínimo da sanidade espiritual para si. Foi assim que eu liguei a um dos meus melhores amigos, que sei que ainda está uns furos abaixo nesta longa e autoimposta jornada rumo à santidade, e o informei que todos os meus CDs seriam dele pelo preço de passar em minha casa a pegar neles. E que já estavam encaixotados e tudo. E que tinha que ser rápido, pois a máquina implacável de reciclagem humana que é a minha mulher já estava com um olho nos caixotes e outro no ecoponto do fundo da rua. Entretanto esse meu amigo, com quem estou quase diariamente, confessou-me há dias que só por duas vezes abriu um CD (foi mesmo só um, acho que As Mais Bonitas, do Vitorino) e o pôs a tocar na aparelhagem. Mas a verdade da vida manda na verdade da vida e o que acontecia por essa altura é que eu já não dispunha de mais do que dois segundos (o tempo que leva a teclar as três primeiras letras de um artista ou de uma canção) para encontrar imediatamente a música que eu queria ouvir. Já não dispunha do tempo que demora a percorrer centenas de CDs com o indicador. (Por muito que eu organizasse os CDs, eles mudavam de sítio durante a noite, saíam das caixas, era um bailarico tremendo).

A verdade é que já existia o Spotify, que foi o derradeiro carrasco dos meus velhos hábitos de consumo musical. Volta e meia alguém me oferece um CD mas eu já não tenho onde o pôr a tocar. Os carros já nem vêm com leitor. Claro que lamento o grosseiro e gigantesco retrocesso que é o facto de essas plataformas de streaming não terem informações, letras, créditos, artwork, etc, mas não tenho dúvida que em menos de nada isso estará resolvido e duma forma que será muito mais digna e satisfatória do que a informação constante de um velhinho libretto de CD. Mas enfim, é claro que o CD, enquanto forma preferencial e exclusiva da veiculação da música gravada e difundida pelo mundo, morreu de forma absolutamente irreversível, tendo-se tornado num nicho de apreciadores e infoexcluídos. O que eu não poderia imaginar na altura é que essa minha alteração radical, esse meu despojamento do suporte físico, haveria de trazer consigo uma outra alteração, mais radical ainda: a morte (para mim) do conceito de “Álbum”. (...Continua daqui a 15 dias)

(Crónica publicada na VISÃO 1293, de 14 de dezembro de 2017)