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Dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida

Dava tudo para tornar a ver os desenhos animados da minha infância, que a tia Madalena nos levava a assistir aos domingos à tarde, num sítio chamado Chiado Terrasse, que de certeza já não existe e onde me sentia o garoto mais feliz do mundo. As luzes apagavam- -se devagarinho, o écran iluminava-se e principiava a minha alegria, uma alegria como nunca voltei a sentir

Susa Monteiro

Porque cruel motivo nenhum cinema passa os filmes de que mais gostei na vida e dos quais tenho uma saudade infinita? Escrevo isto e lembro-me logo de uma frase de Dinis Machado em “O que diz Molero”: “Ó país de cristal que longe eu estou; dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida”. Dava mais do que um ano de ordenado, dava tudo para tornar a ver os desenhos animados da minha infância, que a tia Madalena nos levava a assistir aos domingos à tarde, num sítio chamado Chiado Terrasse, que de certeza já não existe e onde me sentia o garoto mais feliz do mundo. As luzes apagavam-se devagarinho, o écran iluminava-se e principiava a minha alegria, uma alegria como nunca voltei a sentir. Não apenas a alegria: um prazer sem fim. Girafas pestanudas e risonhas, abelhas lindíssimas, de cinturinhas estreitas, muito mais bonitas que as mais bonitas actrizes, mais bem maquilhadas, pelas quais, de imediato, me apaixonava, avôs ursos, de óculos e voz grossa, alguns a fumarem cachimbo, veados simpáticos pelos quais as abelhas, comigo cheio de ciúmes, se apaixonavam, avôs elefantes, de óculos, tão ternos para os seus netos coelhos, gatos ao princípio embirrentos que um corvo, já careca da idade, tornava boas pessoas, joaninhas prestáveis, um bode vestido de polícia que não fazia mal a ninguém apesar do cassetete no cinto, corvos donos de mercearias a oferecerem caramelos a meninos ratos, uma fada borboleta com dois filhos peixes, hipopótamos óptimas criaturas que convenciam zebras embirrentas a tornarem-se agradáveis, tudo isto a falar com sotaque brasileiro, claro, um papagaio gago, de início quezilento e, afinal só tímido e generoso, catatuas muito mais irresistíveis que as amigas das minhas primas. Às vezes, antes destes milagres, havia uma reportagem sobre o Canadá, filmada de um avião de que se estava sempre a ver uma asa, tremendo sobre uma floresta interminável, e que continuava quando outra voz brasileira anunciava a presença de Jimmy, o idoso alce da floresta:

– Este é Jimmy, o rei da

selva. Seu pêlo argênteo conheceu mais de vinte invernos. Todos os anos, pela primavera, Jimmy desce em busca de uma nova companheira.

Jimmy e a nova companheira iam lamber água à beirinha de um rio ainda com restos de neve na margem, já que lamberam água lambiam-se um ao outro um bocadinho, caminhando devagar amparando-se em bengalas invisíveis, lentos, solenes, vagamente cúmplices, espreitados de longe por lobos mansíssimos que não faziam mal a ninguém, a câmara focava um peixe

– Olha o peixinho saltando de pedrinha em pedrinha

enorme, cor de rosa, o filme passava de colorido a preto e branco, uma nova voz brasileira anunciava

O Mundo em Notícias

um senhor careca surgia acompanhado de uma velhota de chapelito, a voz proclamava

– O presidente Eisenhower e uma senhora foram a Caipe Canaveral inaugurar uma nova exposição canina

a senhora pegava ao colo num cachorro sorrindo para a câmara, logo a seguir cinco ou seis louras em fato de banho surgiam a fazer ski aquático presas a um barco cada uma pela sua corda, a voz rejubilava

– E assim se vai nadando e vivendo nas águas calmas da Flórida. Parabéns, Flórida
enquanto as loiras acenavam, eufóricas, para a câmara, as luzes do cinema acendiam-se, a tia Madalena avisava

– Vamos para casa que devem ser quase horas de jantar

puxando-nos a mão como se continuássemos a praticar ski aquático na Flórida, Lisboa, cá fora, não tinha graça nenhuma, nenhum Jimmy entre os candeeiros acesos, nenhuma girafa pestanuda na rua, só prédios e taxis, a tia Madalena

– Gostaram?

nós calados, tristíssimos, a caminho da casa dos avós, esmagando na bochecha, de mão fechada, uma lágrima de saudade das abelhas de cinturinhas estreitas, a tia Madalena prometia

– A gente volta quando for domingo outra vez

o que não nos consolava quase nada, jantávamos na cozinha a desejar que fosse domingo depressa, o meu irmão João segredava um

– Quero mais

(ó país de cristal que longe eu estou; dava um ano de ordenado por um minuto da minha infância perdida)

cheio de melancolias escondidas porque não há nada mais longe na vida do que o próximo domingo e uma semana sem girafas pestanudas torna cada hora infinita. Se ao menos uma abelha de cinturinha fina aparecesse a voar

(dava um ano)

sobre o bolo da sobremesa

(de ordenado por)

pestanejando um sorriso

(um minuto)

sobre nós

(da minha infância perdida)

eu para o João, já deitados

– Achas que vai haver mais domingos?

e houve mais alguns domingos de facto. Infelizmente acabaram há muito tempo. O Chiado Terrasse morreu. A tia Madalena morreu. Era muito linda: parecia-se com o meu avô, e bastava-nos a sua presença para que nenhum mal nos acontecesse, nos pudesse acontecer. Além do mais tratava-nos por

– Filhos

coisa que a minha mãe

(ainda uma lágrima algures nesta frase)

nunca fez. Porque carga de água já ninguém me diz um

– Filho

embrulhado num sorriso de muito amor a fim de que eu consiga acreditar outra vez? É que nasci com vocação de ser pequeno para sempre.

(Crónica publicada na VISÃO 1293, de 14 de dezembro de 2017)