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O melhor do Brasil

Desembocamos na Avenida Brasil em obras. Sentimos a tensão da Babilónia. A condução é intuitiva no pior sentido da palavra. Não há linhas a marcar as faixas de rodagem (alguém deve ter desviado o dinheiro para a tinta)

O melhor do Brasil são os brasileiros. O abraço fundo, a simpatia, a resiliência, a inventividade e, claro, o sentido de humor... Plena crise. A insegurança no Rio cresce. O Real desvaloriza. E para ganhar a vida há quem venda panos do chão com a cara de Temer, dizendo que é para esfregar a sujeira bem na cara do vampirão! Ou sacos de adubo na feira da Glória, gritando alto Aí branquinha, compra minha merdinha! Eu sou o Rei da Merda! Tá na promoção!

O melhor do Brasil é a natureza. Só uma árvore é todo um jardim. Na casca dos troncos vivem pequenas plantas suspensas (as tillândsias), crescem bromélias, florescem orquídeas. É deslumbrante. Temos a certeza que todo o chão quer ser floresta. Imaginamos o Éden avistado do barco de Pedro Álvares Cabral. E reconforta pensar que por muito que se construa, em tijolo ou betão, zinco ou aço, em altura ou em cascata, o Rio de Janeiro continua lindo.

O melhor do Brasil é ser tão próximo e tão distante. Familiar e exótico. Paraty é Óbidos ou Angra do Heroísmo no meio de uma floresta tropical. Na margem de um mar verde escuro, cujas praias cheiram a flores e a frutos. As ruas têm calçada de granito, mas estão cheias de caranguejos. As casas brancas têm riscas de cor à volta das portas e das janelas, mas têm índios sentados à porta a vender pau santo e pequenas onças de madeira. (Dá vontade de ficar, e dançar de novo a Varanda Suspensa da Céu como quem já entende a letra).
Foi lá que negociámos com o barqueiro e fomos fazer um passeio no mar. Praias com coqueiros, pequenas ilhas, animais selvagens. Grelhámos um robalo no barquinho – o Calypso. Conversámos com o marinheiro – o Paulo. E aprendemos sobre os Caiçaras (descendentes de negros e índios que vivem na beira do mar no sudeste brasileiro), que de tanto pescar, claro está, preferem carne. Por isso mesmo, assámos linguiça. Ele abriu uns cocos. Falou de si e do seu barco, e depois fomos todos ver as tartarugas de Jurumirim.

Dormimos com o embalo das águas e com o trepidar do motor do barco. Demos mergulhos nas águas mornas e lembrei-me de Paulo Flores a cantar é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar. Aquela voz que suaviza até a morte e que relembra que no sul o mar é mais verde do que azul. Voltámos ao Rio. Uma viagem de estrada pelo litoral, onde cada aldeia é uma favela e há três usinas nucleares. Desembocamos na Avenida Brasil em obras. Sentimos a tensão da Babilónia. A condução é intuitiva no pior sentido da palavra. Não há linhas a marcar as faixas de rodagem (alguém deve ter desviado o dinheiro para a tinta). Os carros enfiam-se onde houver espaço, pela esquerda e pela direita. Sabemos que estamos mais perto da cidade pelo intensificar da publicidade, da favela, do trânsito. Igreja Mundial do Reino dos Céus. Buzinas e poeira no ar. Tarot, Búzios e Amarrações / Trago a pessoa amada de volta. 
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O melhor do Brasil é a comida. Água de coco na praia. Açaí e casquinha de caranguejo no Tacacá do Norte no bairro do Flamengo. Carne seca com abóbora no Bar do Mineiro em Santa Teresa. Tapioca. Suco de melancia. Pão com ovo. Suco de fruta do conde. Sem açúcar por favor! 
(É preciso dizer sempre). Tudo no Brasil é exagero. Sobretudo no açúcar e na manteiga. Pensando bem, não é mesmo só no açúcar e na manteiga!

O melhor e o pior do Brasil é o exagero. O que é bom é incrível. 
O que é mau é péssimo. A esperança e o desespero andam de mãos dadas. E é tão inspirador quanto cansativo viver na vertigem da montanha-russa. Perder a fé no mundo e reforçar o amor pela humanidade. Levar banhos de água fria, mas carregar as baterias e o sentido de resistência. Confuso para todos, sobretudo para o europeu médio. Para o português tépido. Para mim. (O melhor do Brasil é existir.)

(Crónica publicada na VISÃO 1292, de 7 de dezembro de 2017)