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Salsichinha Gourmet

Por cada antigo comércio que fecha, abre um novo espaço que reclama décadas de antiguidade e tradição, e por cada pequeno tasco tuga que desaparece, abre mais um espaço gourmet com tapas, caffe latte e brunch com panquecas e maple syrup. Enfim...

D.R.

Ainda tem página na internet. Muito irónico isto de uma velha mercearia tradicional ter um ponto pt quando já não existe. É uma espécie de paradoxo temporal: uma placa pintada à mão, anunciando produtos coloniais, fotos de caixas de fruta e bacalhau pendurado, num site que explica a história da casa e que é, na verdade, o último reduto de mais de cem anos de porta aberta. A Casa Oriental do Porto morreu e, para além desse endereço na world wide web, resta apenas a tal placa pintada à mão (como uma tatuagem de um tempo ido) a dizer “chá café e chocolate”.

Depois do fecho, vimos desaparecer as caixas de fruta e aparecer dezenas de bacalhaus de plástico, onde antes estavam os mal cheirosos, devidamente etiquetados a amarelo fluorescente. Vimos a mercadoria nas prateleiras ser substituída por garrafas de vinho do Porto e compotas gourmet. E, mais recentemente, vimos esse sucedâneo higienizado de mercearia ser totalmente substituído pelo “Fantástico Mundo da Sardinha Portuguesa”!

Centenas de lampadinhas acesas, carrosséis, bambolinas vermelhas, tudo às riscas, e sardinhas douradas em fibra de vidro, emoldurando milhares de latas de conserva rotuladas por ano, como se fossem vinho do Porto. (Sou só eu que acho repulsivo comer sardinhas de 1945?)

Uma nova forma de vender conservas inflacionadas e, ao mesmo tempo, entrar de picareta na retina do transeunte, rasgar com os dentes todos os cânones de bom gosto em arquitetura de interiores, e fazer literalmente um circo de uma loja histórica da cidade, a poucos metros da Torre dos Clérigos. Ali mesmo ao lado da “Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau” onde se promete uma portuguese experience, com um copo de vinho e um pastel com gigantismo, recheado de queijo da serra. Maria Lurdes Modesto repudiou. O turista parece gostar. Tem quatro estrelas no Tripadvisor.

Temos também o Café Progresso, que por cada repaginação, mudança de gerência ou conceito, tende a engrossar a voz para reclamar o título de “café mais antigo do Porto” (com a legenda pintada na fachada). Ou as barbearias tradicionais, que se transformam barber shops para barbudos hipsters, onde não pode faltar o “tradicional” barber pole à entrada (que é aquele cilindro às riscas azuis e vermelhas, que se via lá fora, e que agora também há cá). Ou o alfarrabista da Rua das Flores, que tem de ir embora com os seus milhares de livros. Ou a minha costureira, que teve de ir para longe porque o prédio foi comprado para fazer um hostel. Ou a Confeitaria-Restaurante Cunha, que recebeu ordem de despejo com prazo de poucos meses, para estupefação dos portuenses (e não só).

Temos como cenário de memória afetiva aquela decoração cinematográfica de José Porto, de 1947. E temos como sala-de-estar-de-casa aqueles recantos de mesa e sofá, onde conversámos todos muito, à luz do candeeiro de design modernista. Comeram-se biliões de francesinhas naquele chão alcatifado em púrpura e desejamos todos que ainda se comam mais. (Senhor Rui Moreira, estamos à sua espera!)

Muitos outros exemplos poderiam ser dados, na cidade do Porto ou em Lisboa. E muito se tem falado dos impactos do Turismo na especulação imobiliária (para habitação, mas também para o comércio tradicional). Sabemos que já há projetos de proteção em curso, mas parece que a voragem é rápida demais, e não estamos a controlá-la da melhor forma.

Por cada antigo comércio que fecha, abre um novo espaço que reclama décadas de antiguidade e tradição, e por cada pequeno tasco tuga que desaparece, abre mais um espaço gourmet com tapas, caffe latte e brunch com panquecas e maple syrup. Enfim...

Na esquina da Rua Actor João Guedes com a Praça Carlos Alberto havia uma pequena loja de goluseimas e brindes com o amoroso petit nom “Salsichinha Fast Food”. Era tão castiça quanto o nome. Fechou há uns meses. Estou em contagem decrescente para que passe a “Salsichinha Gourmet”.

Crónica publicada na VISÃO 1288 de 9 de novembro