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Pequeno Conto de Cordel II (“Caixa de Vigo”)

Não estou para ser corrido à vassourada pela minha própria avó como os comunistas barbudos do 25 de Abril. Os comunistas barbudos a quererem saber quantas divisões tinha a casa e a minha avó de vassoura a enxotá-los como se fossem moscas

D.R.

Estou aqui parado em frente à casa velha mas não entro. Não é que eu queira propriamente entrar. 
É mais a questão de que nem sequer posso. “Alvará de construção, propriedade da Caixa de Vigo.” Esta casa agora já não é da minha avó. Já não é da minha família. Não posso entrar, seria invasão de propriedade privada. Mas também não quero. Mudei muito desde que a minha avó morreu, agora tenho barba e estou um bocado mais gordo. Tenho medo que não me reconheça, e não estou para ser corrido à vassourada pela minha própria avó como os comunistas barbudos do 25 de Abril. Os comunistas barbudos a quererem saber quantas divisões tinha a casa e a minha avó de vassoura a enxotá-los como se fossem moscas. O 25 de Abril, que para mim não existiu (nasci em 1978) a não ser em histórias de barbudos indiscretos e vassouradas.

Agora isto vai ser um banco.

Imagino (consigo ver) algum bisavô velho, pré-senil, de pijama, gorro de dormir e mau humor, a gritar lá de cima do quarto grande que qualquer dia nos entram por aqui adentro os espanhóis. À volta do bisavô velho (nunca conheci nenhum bisavô) saltitam tias atarefadas, numa azáfama de lençóis, botijas e tachos de água quente, a dizer “está bem, meu pai, está bem”, com aquela condescendência que as mulheres têm quando tratam dos velhos.

E no entanto o letreiro. “Caixa de Vigo”. Os velhos têm sempre razão.

Agora vai estar ali uma caixa a receber as pessoas, em vez da minha tia “meninos, limpem os pés”. Ali onde a minha avó estendia a roupa, as pessoas vão poder estender os limites dos créditos. Já estou a ver, exércitos de cidadãos e cidadãs munidos de cônjuges e carrinhos de bebés, a subir rampa acima (De certeza que vão pôr uma, de acordo com as normas europeias – lá se vai o galinheiro) a caminho dos seus financiamentos.

Ali atrás é onde fazíamos as nossas vendas. Era para juntar dinheiro para os cromos do México 86 (Havia um jogador da Escócia chamado Archibald que nunca mais me saía). Mas a mercadoria acabava por ser toda oferecida, o negócio ia abaixo, e depois o meu primo mais velho afixava um letreiro que dizia “a generosidade é o primeiro passo para a falência”. Em princípio, os senhores espanhóis não vão correr esse risco.

Para já só está aqui este letreiro, mas daqui a nada há de estar aqui um banco que se pode ver. A casa é bonita e vai ser, sem dúvida, uma bela inauguração. Será que vêm televisões filmar? Pelo menos o evento há de ser filmado para mostrar num daqueles fins de semana de Team Building em Troia. Que vergonha. Nem quero ver (mas eu consigo ver estas coisas). O senhor espanhol de tesoura em punho para cortar a fita, depois dos apertos de mão diplomáticos, e o velho

“Vêm aí os espanhóis!”

E a tia

“Meninos, limpem os pés!”

Vai ser uma vergonha. A minha avó a descer as escadas a correr, ofegante e determinada, armada em padeira de Aljubarrota, a ir buscar a vassoura que está, desde que me lembro, pendurada atrás da porta da dispensa, ao pé do chicote de couro.

Crónica publicada na VISÃO 1285 de 19 de outubro