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José Manuel Pureza

Opinião

José Manuel Pureza

Professor Universitário. Deputado do Bloco de Esquerda

Dialogar para mudar

O diálogo entre católicos e marxistas em vista da construção de alternativas para a pobreza e a desumanidade abre perspetivas de refrescamento do pensamento e da ação política. E deixa um registo que importa sublinhar: o diálogo entre os diferentes, em que nenhum deles quer converter o outro, enriquece ambos

Em 18 de setembro de 2014, Alexis Tsipras teve uma audiência privada com Francisco, o Papa. Dessa reunião resultou a decisão de instituir uma dinâmica de diálogo que permita a cada uma das partes – chamemos-lhes a herança católica e a herança marxista – uma melhor compreensão da outra e “o desenvolvimento de análises e de soluções amplamente partilhadas e, onde tal for possível, a definição de campos de ação conjuntos”. Esta ambição parte de uma constatação central: “Face às dificuldades e perigos mundiais atuais, todas as pessoas de boa vontade devem unir-se, independentemente das suas filosofias, das suas religiões e das suas abordagens práticas e teóricas, para encontrarem saídas para a crise. Citando o Papa Francisco, são necessários um diálogo e uma procura de transversalidade entre as linhas de divisão tradicionais”. A recentragem da Igreja Católica sobre a condição dos pobres, operada por Francisco, criou as condições para que este diálogo tenha agora lugar com naturalidade, com franqueza e com exigência.

O alcance desta iniciativa é certamente bem maior do que uma simples reedição, em fórmula mais institucionalizada, do diálogo entre marxistas e católicos que se foi processando ao longo das últimas décadas. É mais que isso. Trata-se de um caminho de convergência que os contornos sociais e ideológicos das políticas que alimentaram a crise social profunda dos últimos anos tornaram numa exigência incontornável. A prática de agressão social alargada em que se traduziram essas políticas neoliberais e o cimento ideológico que lhes foi dado por uma visão apologética do individualismo competitivo erguida à categoria de pensamento único desafiaram não apenas a esquerda herdeira da mundividência marxista, nas suas diversas declinações, mas todo o pensamento comprometido com a prioridade da justiça social sobre os mercados e do trabalho sobre o capital.

O crescente número de conflitos armados e de vítimas por eles provocadas, a realidade da pobreza e da desigualdade, a irresponsabilidade ambiental e a dimensão dos fluxos de migração forçada requerem alternativas plurais corajosas e humanamente densas. O processo de diálogo entre as esquerdas marxistas e a Igreja Católica aberto com o encontro entre Tsipras e Francisco é precisamente um ensaio de busca de convergências entre os legados de ambas aquelas visões para contrapor ao pensamento e à política da crise uma ampliação do campo das alternativas no pensamento e na ação. Não é uma frente nem um aggionarmento da democracia cristã que está no horizonte, longe disso. Não é de receitas ultrapassadas que se trata. O que se joga neste processo de diálogo é sim a construção de plataformas de pensamento crítico e de prática plural e de escala variada para a concretização da solidariedade e da justiça como princípios de organização social. Nem mais nem menos que isso.

Neste tempo de crescimento da força social e política da extrema direita xenófoba e de persistência do neoliberalismo cuja agressão social ajudou a que esse crescimento se verificasse, o diálogo entre católicos e marxistas em vista da construção de alternativas para a pobreza e a desumanidade abre perspetivas de refrescamento do pensamento e da ação política. E deixa um registo que importa sublinhar: o diálogo entre os diferentes, em que nenhum deles quer converter o outro, enriquece ambos. E os demais, espera-se.

(Artigo publicado na VISÃO 1285, de 19 de outubro de 2017)