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Umas autárquicas ‘nacionais’

Não faz sentido a 'tese' de que fica mais frágil o Governo do partido inquestionável vencedor das eleições, sustentado por forças que no conjunto aumentaram a votação

1 A pesadíssima derrota do PSD nestas autárquicas ultrapassou tudo o previsível – ou até o imaginável. Escrevi aqui que não ganhando as eleições, seu objetivo declarado, o mais natural seria Pedro Passos Coelho (PPC) não as perder, por melhorar os resultados em relação aos, desastrosos, de 2013. Tanto mais as eleições locais sempre terem penalizado quem está no Governo e o PSD ter muitos autarcas que valem por si. Afinal, o PSD conseguiu ainda piorar, e bastante, em todos os aspetos, incluindo nas autarquias maiores e mais simbólicas. Assim, se não “desaba”, porque não pode desabar, o PSD de PPC sofre(u) uma estrondosa derrocada, da qual nunca com ele se poderá reerguer.

Escrevi também, na mesma altura (VISÃO de 24 de agosto), que “a posição de cegueira e agressividade de PPC perante o Governo só pode prejudicar o PSD, mesmo eleitoralmente”, acrescentando que os bons autarcas do partido “devem desejar é que PPC não lhes apareça na campanha...”. Mas apareceu, andou pelo País (quase) todo, sempre com o mesmo discurso, negando o óbvio e dando à eleição clara dimensão e significação nacionais – que os resultados evidenciaram, mas no sentido oposto ao por si pretendido. E perante tudo isto ainda precisa de refletir sobre o que fazer?...

2 Em relação a 2013, o PCP também perdeu. Só que a sua situação não é comparável à do PSD. Desde logo porque este teve então o tal resultado desastroso, enquanto o PCP teve dos melhores. Acrescendo que, face ao histórico das autárquicas, o PSD deveria beneficiar de ser o principal partido da oposição; e o PCP poderia ser prejudicado pela “viragem à esquerda” do PS. Fará então sentido a “tese”, muito repetida, de que os resultados do PCP podem pôr em causa a solidez da base de apoio do governo? Não faz. Ou só faria se o PCP não tivesse a maturidade que julgo ter e António Costa não fosse o excecional político que é. Parece-me, aliás, absurdo sustentar que fica mais frágil um governo, do PS, que foi o inquestionável grande vencedor das eleições, com o melhor resultado de sempre de um partido em autárquicas. E Governo com sustentação de duas forças à sua esquerda, as três, no conjunto, tendo aumentado a votação, enquanto a oposição, à direita, a diminuiu. Com a agravante do mais pequeno dos dois partidos que integram essa oposição, o CDS, ter crescido, e Assunção Cristas conseguido um excelente score em Lisboa, e o maior, o PSD, ter sofrido a derrota que se viu – o que obstaculiza muito, se não impossibilita, futuras coligações entre eles.

3 Não cabendo aqui mais, fique só o registo, pouco salientado, do significativo aumento de candidatos e eleitos independentes, isto é: que não emergem da escolha e “chancela” de qualquer partido. Ganharam 17 câmaras, sendo muito diversos os 'casos', de Rui Moreira no Porto a Isaltino Morais em Oeiras, de Elisa Ferraz em Vila do Conde a Henrique Bertino em Peniche. O que quero realçar é a importância cada vez maior de poder haver essas candidaturas. E a lastimável atitude dos partidos que longo tempo as impediram (sei-o por ter sido, como deputado, o primeiro signatário do primeiro projeto de lei a propô-las...) e ainda hoje de certo modo as dificultam.

(Artigo publicado na VISÃO 1283, de 3 de outubro de 2017)