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“A Tua Estátua”

Opinião

Capicua

Foi no “Livro de Cesário Verde” que encontrei a “Sardenta”. Uma quadra ligeiramente erótica, dedicada às mulheres leitosas, que na minha condição de branquela, cheia de sinais, próxima do padrão de beleza de séculos idos há muito, me pareceu reconfortante

Tornei-me amiga de Cesário Verde por intermédio do meu pai, que gosta de declamar o De Tarde com o sorriso de quem repete uma façanha antiga. Quatro quadras, de 1887, que descrevem detalhadamente toda uma cena pastoril, para não perder a oportunidade de elogiar um belo decote. As talhadas de melão, o pão de ló molhado em malvasia, o burrico e um par de mamocas devidamente adornado por um ramalhete de papoilas, é tudo o que é preciso para compor um belo quadro campestre e perpetuar um jovem poeta na história da literatura portuguesa e na minha história afetiva e familiar.

Gosto de pensar que foram os seus versos bucólicos que o resgataram da morte precoce, aos trinta e um anos de idade, como a pintura a Amadeu de Souza-Cardoso, ou a música a António Variações. Haja arte para imortalizar homens sensíveis! Caso contrário, a História só rezaria feitos de bravos guerreiros e líderes audazes e não haveria vestígio dos que se distraem a ouvir o coro das musas.

Continuando... Foi no Livro de Cesário Verde que encontrei a 
Sardenta. Uma quadra ligeiramente erótica, dedicada às mulheres leitosas, que na minha condição de branquela, cheia de sinais, próxima do padrão de beleza de séculos idos há muito, me pareceu reconfortante: “Tu, nesse corpo completo / Ó láctea virgem doirada / Tens o linfático aspecto / Duma camélia melada.”

Tem tanto de simples quanto de kitsch e inspirou-me a fazer um exercício de escrita, que acabou por ser um poema, e que, entretanto, a convite do fadista Marco Rodrigues, se tornou uma letra e foi gravada em fado.

A Tua Estátua é, assim, a minha aproximação à Sardenta, de Cesário Verde, e simultaneamente ao Fado Tamanquinhas, sem perder a oportunidade de elogiar um decote (não fosse esta a primeira vez que escrevi para uma voz masculina) e de ser kitsch q.b. (não fosse eu nascida e criada nos anos 80).

É que se isto de escrever letras de fados, sendo do rap, não servir para trazer alguma novidade à minha escrita, não me convoquem. Quis escolher palavras novas e inesperadas. Quis rimar com rimas pouco óbvias. Quis ser pictórica, usando alusões às artes plásticas (achei apropriado). E quis aproveitar a oportunidade de escrever para uma voz masculina e experimentar a minha escrita nesse outro hemisfério da carne (como aprendiz de Chico Buarque e como venusiana em Marte).
Felizmente, Marco Rodrigues aceitou o desafio e embarcou no meu atrevimento. Cantou as minhas palavras novas e inesperadas num fado tradicional. Fez fluir suavemente a métrica angulosa das minhas rimas pouco óbvias. Emprestou a sua verdade às minhas imagens, a sua sensualidade e devoção à mulher que imaginei, e a sua voz bonita ao mundo (o que não é coisa pouca).

Convido-vos a ouvir A Tua Estátua, porque o disco do Marco já anda por aí e porque as palavras sem música não têm metade da graça... Ainda assim, não resisto e vou deixá-las aqui, em jeito de declamação, com o sorriso de quem repete uma façanha antiga (não fosse eu filha do meu pai):

No vidrado subtil / Do azul do azulejo /Eu me tinjo em teu anil /Eu te vejo e te desejo / Nas linhas do teu perfil / (Eu me tinjo em teu anil / Eu te beijo 
e te desenho / Nas linhas do teu perfil)

Eu esbocei o teu croqui / Com saliva e aguarela / E na tela eu descobri/ Sem a roupa, a tua pele / É quase como um biscuit / (Descobri quando despi / que sem roupa, a tua pele /É quase como um biscuit)

Essa tez fez-se um verniz/ Na tua nudez de época/ Retocada a pó de giz/ Em tua pose perpétua / Não és pedra por um triz / (Retocada a pó de giz/ No teu brilho madrepérola / Não és pedra por um triz)

O teu batom fez-me Drácula / Nas sardas a via láctea / Perfeita sem uma mácula / De mármore, assim linfática/ Vou esculpir a tua estátua/ (Perfeita sem uma mácula / Prometi, jurei a Fátima/ Vou esculpir a tua estátua!)

Crónica publicada na VISÃO 1282 de 28 de setembro