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While My Guitar Gently Weeps

O Rock and Roll morreu no início dos anos 90. Morreu de causas naturais, com toda a dignidade, depois de uma vida longa e fértil

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Quando eu comecei a dar os primeiros toques num baixo Samick o Rock and Roll, em sentido estrito, já se tinha mais ou menos instituído como a norma. Bateria, baixo, duas guitarras e um eventual teclado. Quando se falava de música, no meu liceu, era disto que se falava. A flauta de bisel, o xilofone e as claves de sol das aulas de música do professor Abel eram outra coisa qualquer. A música que o pessoal ouvia nas escadas da escola em walkmans amarelos brotava de coletivos que se agrupavam sob essa cartilha, a da formação “clássica” de rock. Para formar uma banda era necessário encontrar um baixista, dois guitarristas e um baterista, no mínimo. (O vocalista não tinha propriamente estatuto de músico). Apreciava-se a modernidade, a vanguarda, guitarras novinhas em folha, quanto mais não fosse. “Digital” era um termo bem-vindo porque ia ao encontro disto tudo. As fábricas desenvolviam modelos novos de instrumentos, a revista que os bateristas compravam nas tabacarias boas chamava-se Modern Drummer e os CDs com melhor som, dizia o senhor da “Rolls Rock”, no Dallas, eram os que diziam DDD (digital para digital para digital). O compact disc, face ao formato anterior, era naturalmente preferencial. Os guitarristas mais venerados eram os inovadores, os que apareciam com novas técnicas. “Técnica” era outro conceito apreciado. A dinâmica de vitalidade que elevou o Jimi Hendrix a estatuto de semideus foi a mesma que agora dava Glória ao Van Halen. Isto em 1988. Mas tudo tem um fim. All Things Must Pass. Só que antes do estertor derradeiro, as coisas passam por uma espécie de antecâmara de cristal. É nessa antecâmara que o rock se encontra. Tal como a sardinha que está dentro da lata de conserva. Ou a fruta cristalizada que ornamenta o bolo-rei. Ou as lascas de maçã desidratada naqueles pacotinhos de snacks saudáveis que agora se vendem nas estações de serviço. Ou como a cabeça embalsamada do javali que ornamenta o fogão de sala do caçador do século 19. A sardinha, a laranja, a maçã e o javali morreram todos. Transitaram já sem vida para o estado de conserva que lhes alargará o prazo de validade por muitos e bons anos, mas sob uma forma de vida que não é bem “vida”. Conservar, cristalizar, desidratar e embalsamar são tudo métodos que prolongam o estado de conservação de coisas mortas. Por isso é que essas coisas se tornam imperecíveis. É porque já pereceram. O facto de se poder comer uma sardinha em lata 10 anos depois da sua morte não significa que essa sardinha esteja viva. Significa que está morta, e a calda oleosa que a conserva na lata prolonga-lhe a morte de tal maneira que nem sequer a biodegradação do ciclo da vida quer alguma coisa com ela. Claro que ainda existe “música rock”. Mas o Rock and Roll morreu no início dos anos 90. Morreu de causas naturais, com toda a dignidade, depois de uma vida longa e fértil. Longa, para o estilo de vida que levou. Live fast, die Young. Morreu quando se acomodou ao modo de vida que desde sempre se propôs a aniquilar: o conservadorismo. O rock and roll tornou-se apegado às tradições, ao “bons velhos tempos”, às formas antigas, ao desprezo pelo moderno, cultivado por exércitos de trintões e quarentões que usam a expressão “no nosso tempo”. Foi com imponderado espanto que, numa escola secundária onde fui falar aos alunos, aqui há uns meses, perguntei à imensa plateia de adolescentes quantos é que andavam a aprender guitarra e, de que é que eu estava à espera, nenhum braço (absolutamente nenhum) se levantou. Espantou-me o meu espanto: é que agora a música deles, naturalmente, é outra e ninguém engana um puto de 14 anos.

(Crónica publicada na VISÃO 1281, de 21 de setembro de 2017)