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No mundo hiperbólico em que vivemos, todo o estúpido tem um megafone na mão e todo o conflito está a passar em direto num qualquer ecrã

Dá-se uma microexplosão aleatória no Facebook ou no Twitter e as ondas de choque começam a dispersar. Partilha puxa partilha, retweet puxa retweet e, como de uma supernova de verborreia e conflito, nasce uma polémica.

Às vezes, a explosão original já tem anos e demora muito a desaguar na (des)ordem do dia. É como se tivesse origem numa galáxia longínqua, chegando com um grande atraso à ruidosa festa das redes sociais. Independentemente do seu tempo, quando se instala uma polémica na timeline, o que era velho renova-se e a faísca dos reacendimentos provoca novas microexplosões com um potencial de conflito infinito.

E nós, astronautas do caos, vamos navegando no meio das chamas, contornando algumas batalhas, mergulhando noutras com dentes cerrados e olhos enraivecidos, mas, de uma forma ou de outra, afetados pelo ruído e cansados da luta.

A estupidez não é coisa nova. O conflito menos ainda. Mas no mundo hiperbólico em que vivemos, todo o estúpido tem um megafone na mão e todo o conflito está a passar em direto num qualquer ecrã (grande ou pequeno). E mais ainda: todos temos o poder de reamplificar a voz do estúpido e de assistir de camarote ao conflito, enquanto avaliamos performances e atiramos carne aos abutres.

Somos comentadores, especialistas, treinadores e denunciadores de tudo e de todos e começamos a estar habituados a reagir por impulso, adjetivando e pontuando: restaurantes, hotéis, políticos, artistas, posts, notícias e opiniões em geral. Alguém comenta e opina, outro comenta o comentário e opina sobre a opinião, enquanto um terceiro faz like ao comentário sobre o comentário, e um quarto insulta o comentador inicial, assim como o seu comentador, que não é ninguém para comentar o comentário do insultado. É sempre assim, sucessiva e eternamente.

Já o era no passado, no tasco, com os ébrios à bulha por causa do futebol. Ou nas grandes batalhas campais de lavadeiras, soberbamente descritas por Raul Brandão. Mas nunca como hoje foi tão público, no sentido em que não se limita à ágora local, já de si pública, mas está a acontecer na ágora virtual do mundo inteiro, para o mundo inteiro ver, opinar, interferir e amplificar.

Num momento em que os media noticiam o que se passa nas redes sociais, com a mesma atenção com que noticiam o que se passa na rua, as redes sociais moldam a atualidade. As notícias saem primeiro na internet, a tendência da opinião pública é definida pelo esteio do debate online, e os media tradicionais ampliam o que se passa nas redes.

Posteriormente, os comentadores e (ex)opinionmakers dos media tradicionais analisam as polémicas com sobranceria e distanciamento, avaliando, com solenidade de juiz do supremo, a sua validade e consequências políticas, sociais e económicas. São esses os que mais criticam as redes sociais pelo exagerado potencial de polémica e conflito, mas participam permanentemente na sua amplificação, enquanto validam a sua existência, na atenção que lhes prestam nos seus prestigiados espaços de opinião.

É tudo farinha do mesmo saco. E nós também. Só se safa quem mora numa cabana no meio do mato, sem internet, rádio, tv ou jornais, porque quem vive neste mundo, faz parte dele, inevitavelmente. E como o nosso mundo, existe em boa medida nesta dinâmica, online/offline-sobre-o-
-online, não há forma de não enlamearmos as botas!

Assim sendo e para sobreviver, há que manter a distância possível, como os cardíacos que gostam muito de futebol. Sem esquecer que é importante distinguir o mundo e as pessoas, da internet e dos internautas. Porque há a tendência para definir todos os sportinguistas por aquela polémica do Twitter, todas as feministas, por aquele debate no Facebook, todos os defensores dos direitos dos animais por aquela petição online e assim sucessiva e cegamente..

(Crónica publicada na VISÃO 1280, de 14 de setembro de 2017)