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António Lobo Antunes

Levei-a à igreja, ela inclinou-se sobre o caixão e beijou-o na boca. Foi o único beijo deles na boca que eu vi, porque eram pessoas de um grande pudor.

A minha mãe achava que a coisa mais sensual num homem era a inteligência e a coisa menos sensual um rabo grande, embora acrescentasse não haver nada mais estúpido que um homem inteligente

(“Um homem bonito e burro ao fim de um quarto de hora não tem cara”)

e que os seus próprios filhos eram muito inteligentes para umas coisas e muito burros para outras, no que tinha, como aliás em quase tudo, razão. Acima da inteligência só colocava a bondade, que era uma das mais importantes características do seu pai, que ela adorava. A minha relação com ela foi sempre complicada. Mas quando tive o cancro

(um em cada pulmão)

veio visitar-me e enquanto o meu irmão Pedro me agarrava os ombros e me sacudia a chorar

– Não me morras, não me morras

(logo o Pedro que quase nunca chorava)

compreendi que, se pudesse, dava a vida por mim. Anos depois o Pedro morreu e nós, os filhos, fomos, os cinco

(o Pedro já não estava, claro)

dizer-lhe. Achava-se sentada na sua cadeira e respondeu com duas frases apenas. A primeira foi

– Tenham misericórdia de mim

e a segunda, passados momentos

– Uma mãe não tem o direito de estar viva com um filho morto

e por isso quis morrer e morreu, ela, a pessoa menos piegas que conheci. Anos antes o pai tinha partido. Passava o tempo fechado num quarto, com os seus livros, a sua música, a sua medicina, e quase só o víamos à hora das refeições. 
A casa era grande e sem o pai parecia vazia. Disse-lhe

– Esta casa sem o pai parece vazia

e ela respondeu-me

– É que ele tinha uma presença muito forte

O que era verdade. Levei-a à igreja, ela inclinou-se sobre o caixão e beijou-o na boca. Foi o único beijo deles na boca que eu vi, porque eram pessoas de um grande pudor. Depois endireitou-se e saímos. Ainda hoje tenho um enorme orgulho nesse beijo, ela que começou a namorá-lo com catorze anos, eles que viveram juntos mais de sessenta. Julgo que foram felizes

(nunca falaram disso connosco)

tiveram de certeza problemas complicados e fases difíceis, claro, mas continuaram sempre juntos. E o meu pai não era um homem simples: contraditório, violento, apaixonado. Teve a sorte de encontrar uma mulher do caraças, ainda por cima linda. Da cabeça aos pés, eu que nunca vi pés tão bonitos como os seus. Achava o marido atraentíssimo

(eu achava-o feio como o caneco)

e se calhar devia ser atraentíssimo porque via isso nos olhos das mulheres. E tinha a voz mais sedutora que conheci. Tão sedutora que às vezes lhe telefonava só para o ouvir dizer

– Filho

e era impossível ter-se frio ao pé dele. Claro que era muito consciente disso e irritavam-me as aulas de Neurologia na Faculdade com ele a conquistar as minhas colegas todas, jogando com toda a gama de graves da garganta e o olhinho azul a passear pela plateia enquanto eu sentia ganas de o estrangular. A mãe, pesarosa

– Nenhum dos filhos herdou a voz do pai

e era capaz de ter razão porque as netas lhe faziam todas fosquinhas apaixonadas. Às vezes penso no que ele sentiria por mim. Sei que me gabava diante dos outros mas a mim

(como aos meus irmãos)

não nos elogiava, suponho que por razões de autoridade. Sei que pensava, coitado, que eu tinha nascido para fazer grandes coisas, esse tipo de sentimentos que qualquer pai sente por qualquer filho. Como sei que tinha orgulho nos meus irmãos que tão pouco o ouvi elogiar e compreendo que assim fosse. Nunca houve efusões entre os nossos pais e nós e não lhes quero mal por isso. Tinham outras formas, sempre muito discretas, de o comunicarem, eu que sou desbocado e acho que tenho uns irmãos de penica. Mas disso também não falávamos, nós que vivíamos uns com outros, que continuamos a viver uns com os outros uma relação fortíssima. Tenho imenso orgulho nos meus irmãos

(devo estar parvo porque nunca digo isto)

e sinto-me imensamente afortunado com a minha família. A minha mãe costumava dizer

– Desafio qualquer mulher a ter filhos tão inteligentes e tão bonitos como os meus
e declarava isto com uma sinceridade absoluta. 
O amor de mãe é assim cego, mesmo numa pessoa tão extraordinariamente contida como ela foi sempre. 
O melhor é desculpá-la, fingindo que não ouvimos. 
Ou então dizer-lhe, como fiz tantas vezes

– Quer que lhe diga poemas?

para ela se levantar logo do seu lugar e vir sentar-se ao meu lado. Só nunca tive coragem de murmurar-lhe

– Mãezinha

como tantas vezes me apeteceu.

(Crónica publicada na VISÃO 1280, de 14 de setembro de 2017)