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Portugal, Portugal

Julgamo-nos culturalmente superiores aos espanhóis por falar “bem” inglês. Mas o que é que pode ser culturalmente mais forte do que ter a sua própria pronúncia inglesa, como os espanhóis têm?

Nos filmes americanos às vezes aparece um francês. E uma pessoa está mesmo a ver como é que vai ser esse francês. Alto e esguio, de camisola de gola alta, óculos de massa, copo de vinho tinto na mão e bilhetes para a ópera na outro. Gestos quase efeminados de tão aristocráticos. Tem um olhar azul aguçado e vai a museus e galerias de arte, nos filmes americanos. Às vezes aparece um italiano. Anda de vespa, fala alto, usa um bigodinho ralo, mete-se em pancadarias e comezainas e diz coisas como “mamma mia” e “belíssimo”. Uma pessoa está mesmo a ver como é que é o italiano dos filmes americanos. Outras vezes aparece um espanhol. E de todas as vezes que aparece, corresponde à imagem que nos assome imediatamente à cabeça: pele tisnada pela canícula andaluza, cabelo comprido, camisa preta com os 4 botões de cima desapertados, “temple” de toureiro nos gestos largos e lentos. Voz grave e demorada. Se aparecer um alemão também se está mesmo a ver como vai ser. Estou a ouvir o sotaque inglês do alemão dos filmes americanos e nem sequer há alemão nenhum, nem sequer há filme nenhum. Isto sou eu para aqui a imaginar. França, Itália, Espanha e Alemanha são só alguns dos países que têm direito a ter um sotaque inglês. Existe o linguajar espanhol da língua inglesa, até mesmo eu que não gosto de cinema e nunca vejo filmes sou capaz de o fazer soar na minha cabeça. O mesmo para o francês e para o italiano. Estes países exportam atores para Hollywood para fazerem de nativos dos seus países de origem. O António Banderas é o moreno de camisa preta aberta e melena desgrenhada que anda a partir corações por essas telas mundo afora. São países que emanam uma imagem, um modo de vida, um conjunto de maneirismos que ao longo dos anos se instalou no imaginário popular. São países dos quais de intui uma cultura. O mesmo se passa com o Brasil, a Índia, a China, o Japão, sei lá. Nós aqui em Portugal julgamo-nos mais cultos do que os espanhóis porque falamos “melhor” inglês do que eles. Olhamos com paternalismo e escárnio a forma como o Júlio Iglésias canta “To All the Girls I´ve Loved Before” no seu clássico dueto com o Willie Nelson. Mas os nossos cantores que se servem do Inglês quase sempre o fazem através de uma pronúncia inócua, estéril, um qualquer sotaque americano central que não é nem o falar levemente italianado dos nova-iorquinos nem o sotaque caubói dos rednecks do sul. É um meio termo higienizado, uma prosódia hermética que não é propriamente de nenhum lado. Muito menos nosso, e aí é que está: Julgamo-nos culturalmente superiores aos espanhóis por falar “bem” inglês. Mas o que é que pode ser culturalmente mais forte do que ter a sua própria pronúncia inglesa, como os espanhóis têm? O Willie Nelson convidou o Julio Iglesias precisamente pela graça com que ele canta o inglês. Portugal não projeta propriamente uma cultura. Será que a tem? Existe cultura em Portugal, pois de outra forma não poderíamos viver. Mas essa cultura não é propriamente portuguesa. Nunca aparece um português nos filmes americanos. Se aparecesse, como seria ele? Nem nós sabemos dizer. Não temos direito a uma marca que se instale no imaginário popular do mundo. Nem nós próprios nos sabemos imaginar nesses termos, o do estereótipo fútil de um filme americano. Claro que temos o Joaquim de Almeida. Mas quantas vezes é que o Joaquim de Almeida fez de português nos filmes americanos? Quase sempre interpreta o sul-americano mauzão traficante de droga. Nós sabemos mais da história americana do que da nossa porque a nossa imaginação se pode facilmente recorrer dos filmes de caubóis que a nossa televisão tanto passou nas nossas infâncias. Esse imaginário está-nos amplamente disponível. Pelo menos eu quando era puto brincava aos caubóis e nunca me lembro de alguma vez me ter ocorrido brincar aos campinos ou aos descobrimentos ou aos legionários do D. Afonso Henriques. E essa, para mim, é que é a verdadeira questão portuguesa.

(Crónica publicada na VISÃO 1279, de 7 de setembro de 2017)