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Autoeuropa: ver os filhos crescer é um direito

Os avanços científicos e tecnológicos que a Humanidade tem conhecido impõem a redução e não o aumento dos horários de trabalho

A tarde era de chuva e de frio, mas o jogo tinha corrido bem. A equipa do Mauro saíra vitoriosa e os infantis conquistavam o primeiro lugar no torneio. A alegria dos pequenos jogadores era contagiante. Por isso mesmo foi impossível não reparar na tristeza do Mauro que, apesar de ter marcado dois golos e recebido os abraços da avó, não parava de chorar. Dias mais tarde num dos treinos da semana seguinte viria a perceber a razão das lágrimas. Confessava a avó que o filho trabalhava por turnos e muitas vezes ao fim de semana, a nora trabalhava num hipermercado (igualmente em regime de turnos e ao fim de semana), o que tornava praticamente impossível a possibilidade de assistirem 
a um jogo do filho.

A família do Mauro não é caso isolado. No nosso país, diariamente, muitos milhares de trabalhadores sobrevivem sujeitos a um ritmo fortemente desgastante do trabalho por turnos, mães e pais que não veem os filhos, crianças que crescem privadas de tempo de lazer e descanso, famílias construídas nos dias e nos afetos intermitentes.

O número de trabalhadores sujeito a este regime de profundo desgaste físico e emocional tem sido crescente. De acordo com dados do INE, entre 2011 e 2016 o número de trabalhadores em regime de turnos passou de cerca de 600 mil para mais de 725 mil, nada mais nada menos do que 2 em cada 10 trabalhadores. E, se há atividades que exigem um funcionamento ininterrupto (serviços de saúde ou setores industriais com fornos e outro tipo de equipamentos) na generalidade das empresas tal não se justifica.

Vivemos tempos em que o capital, através de uma estratégia concertada de várias empresas, tenta fazer o assalto aos horários de trabalho eliminando o avanço civilizacional do sábado como dia de descanso. Para atingir tal objetivo, têm trabalhado em todas as frentes: nos locais de trabalho através da repressão, chantagem e intimidação sobre os trabalhadores; na opinião pública através de uma campanha fortíssima sustentada na conceção retrógrada de que o desenvolvimento produtivo é incompatível com o respeito pelos direitos dos trabalhadores. Nada mais errado. O desenvolvimento da produção e o respeito pelos direitos dos trabalhadores não têm que ser elementos antagónicos. Pelo contrário. Ambos são condição de progresso e justiça social, basta para isso enfrentar os mecanismos de agravamento da exploração e não igualar o trabalhador a qualquer peça descartável. Produção e direitos não devem andar de costas voltadas, mas antes de mãos dadas.

O recente exemplo da Autoeuropa, importante empresa do setor industrial com um elevado número de trabalhadores e grande peso na economia nacional, é elucidativo desta estratégia de ataque aos horários e tempos de descanso.

Ao longo dos anos os trabalhadores da Autoeuropa têm assumido tomadas de posição ou formas de luta que permitiram travar ou fazer recuar medidas que atingiam os seus direitos, incluindo a participação massiva em greves gerais. Na Autoeuropa o trabalho efetuado aos sábados, domingos e feriados foi sempre considerado como trabalho extraordinário e pago como tal. Daí que agora, face a uma proposta que não garante o sábado como dia de descanso e apenas permite que um trabalhador tenha um fim de semana seguido de seis em seis semanas, os trabalhadores se tenham unido para defender o direito a ter vida familiar e pessoal. A greve de dia 30 foi o instrumento dos trabalhadores para prosseguir a negociação e encontrar soluções.

Nos últimos dias, centenas de invenções e deturpações, mistificações para todos os gostos foram escritas e ditas sobre esta greve, fugindo ao que está em causa. Mas não têm os trabalhadores da Autoeuropa direito a continuar a ter um horário de trabalho digno e a defender esse direito? É isto que verdadeiramente está em causa, um horário de trabalho que permita articular a vida profissional e familiar.

Os avanços científicos e tecnológicos que a Humanidade tem conhecido impõem a redução e não o aumento dos horários de trabalho. É incrivelmente arrepiante pensarmos que, passados mais de 131 anos do primeiro 1º de Maio, a luta pela fixação das 8 horas de trabalho e pela redução do horário de trabalho é de uma imensa atualidade, e que há mais de um século que tantas mulheres e homens lutam corajosamente pelo direito a ter tempo para descansar e ver os filhos crescer.

Abraço forte e solidário a todos os que resistem 
e lutam na Autoeuropa, por eles, pelas suas famílias, pelo País.

(Artigo publicado na VISÃO 1279, de 7 de etembro de 2017)