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José Eduardo Martins

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José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

Lisboa

Lisboa, para este executivo, foi uma sala de visitas construída no eixo central

A VISÃO da semana passada tinha, como sempre, muito que ler mas nada me prendeu mais a atenção que a meia dúzia de páginas sobre o sr. Anthony Lanier, o homem responsável pela transformação do Príncipe Real.

O projeto de o transformar no bairro mais cool de Lisboa implica, planeamento investimento e gestão, explica o empresário que dá conta do tipo de lojas, de hotéis e de atividades que quer no "seu" bairro.

A maioria das ideias do senhor é boa. Mas podiam não ser, como não são muitas outras onde a demissão dos poderes públicos tem entregado o planeamento à vontade casuística dos endinheirados.

Esta apropriação privada do planeamento é, afinal, o espelho de uma Câmara Municipal sem o comando da cidade, arrastada pelas circunstâncias que têm governado Lisboa.

Só ocorre pensar como é possível que uma cidade com 2 mil fogos vazios e mais de 2,5 mil famílias dependa em absoluto do alojamento local para fazer reabilitação urbana e se dedique a desoras, a um programa de renda acessível que ninguém sabe o que é e implica apenas e só mais construção nova amparada financeiramente pela Câmara.

A reabilitação de que tanto falaram até para nela apostar o dinheiro da segurança social é, afinal, apenas fruto da explosão do turismo sem que a Câmara de dedique a qualquer tipo de regulação na utilização do espaço público.

Lisboa precisa mesmo urgentemente da visão e liderança que há muito não tem, apesar de dispor de serviços municipais de elevada qualidade, recursos humanos em grande quantidade, sistematicamente subaproveitados e recursos financeiros como nenhum outro executivo teve até à data.

A prioridade de Lisboa precisa de voltar a ser os que moram, os que estudam e os que trabalham por aqui. Os que querem cá crescer, morar e envelhecer.

As pessoas estão sempre primeiro, são a razão de ser das medidas, não podem continuar a ser os danos colaterais de políticas cegas feitas para encher o olho do turista.

Lisboa não pode continuar a ser um estaleiro a céu aberto, onde o experimentalismo substitui o planeamento, onde o dinheiro dos contribuintes é esbanjado em obras inúteis que infernizam o quotidiano dos lisboetas e dos visitantes.

Lisboa tem perdido população e, sobretudo, tem perdido população jovem por não ter habitação, mobilidade e emprego fora do turismo. Uma cidade que não atrai os mais jovens, que não consegue manter uma população em idade escolar e pré-escolar é uma cidade sem futuro.

Tal como não tem futuro uma cidade alheada dos desafios da economia contemporânea.

Há uma nova vaga tecnológica que está a transformar o nosso mundo, aproveitando as oportunidades que oferece para as pessoas e para as empresas, conciliando os novos modelos de negócio com o apoio ao desenvolvimento da economia tradicional da cidade, salvaguardando a sua identidade.

Lisboa só terá futuro sustentável se abraçar as novas tecnologias, se disponibilizar aos lisboetas e a quem nos visita um acesso fácil às tecnologias da informação, se desmaterializar os procedimentos administrativos e simplificar a burocracia municipal, tudo o contrário do que tem acontecido.

Lisboa, para este executivo, foi uma sala de visitas construída no eixo central. Nada contra o turismo. Visitar Lisboa pode e deve ser uma experiência agradável e enriquecedora. Não precisa é de ser feita à custa do conforto e da mobilidade dos lisboetas.

Só há Lisboa para ser visitada pelos turistas enquanto houver lisboetas a habitá-la, enquanto a cidade souber manter a sua identidade.

O sr. Lanier tem um plano para o Príncipe Real. O Plano do dr. Medina ninguém sabe qual é.

(Artigo publicado na VISÃO 1278, de 31 de agosto de 2017)