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Saco amarelo e bata azul

A vida real é-me vedada por falta de esperteza e desembaraço e só me resta observar da varanda. Foi por essas e por outras que me agarrei à viola que os meus pais me ofereceram no Natal de 1990 como um náufrago se agarra a uma boia

Luc\303\255lia Monteiro

Lembro-me do meu primeiro dia de aulas com a mesma nitidez com que me lembro do dia de ontem. A casa da minha família era em Águas Santas e o Colégio Luso-Francês era no Amial, ainda era longe. Foi o meu pai que me levou, estava a chover e no caminho havia um sítio onde o pessoal encostava para comprar o jornal a um ardina que sacava Comércios do Porto semi-húmidos de dentro dum saco de oleado grosso, amarelo vivo. Essa pequena paragem para abastecer os cidadãos de informação diária causava sempre algum engarrafamento. Foi por isso que eu cheguei com alguns 10 minutos de atraso ao meu primeiro dia de escola. E foi durante esses 10 minutos fundamentais que todos os outros 20 e tal recém-iniciados no longo calvário escolar pelo qual todos passamos criaram laços. Choro e ranger de dentes, os pais e a mães a virarem costas, meninos esta é a professora Antónia, digam olá, “oláááááá!”, esses trâmites normais. Quando eu cheguei à Sala das Joaninhas encontrei um ecossistema perfeitamente estabilizado, com milénios e milénios de harmonização e auto ajuste. Grupinhos feitos, crianças a brincar e a rir e eu o forasteiro. No Colégio Luso-Francês andava-se de bata. As batas tinham o logótipo bordado, CLF. E a minha avó sendo a minha avó tinha tratado de fazer ela própria a minha bata, num azul ligeiramente diferente e com o logótipo nitidamente maior. Como eu era mais alto que os outros, mais tímido e menos esperto, de uniforme desgarrado, vi-me ali à rasca. E os outros todos na maior, a saberem de coisas que eu não sabia. Essa sensação de que o coletivo dispõe de informação que me é vedada, de que o resto das pessoas está a par de formalidades das quais só a mim é que ninguém avisou, é algo que me acompanha até hoje. Vejo-me aflito na vida real. Meto-me numa fila e toda a gente tem um impresso na mão que só eu é que não faço ideia que era preciso ter tirado, nem onde se tira. Não consigo tratar de nada. Compro bilhetes de avião online a 12 euros, clico no ok e aparece parabéns, conseguiu os seus bilhetes, e no total aparecem 200 e tal euros. Aparece-me uma carta em casa e eu não abro, nem lhe toco, deixo ali quietinha na esperança que tudo se resolva por si, que as letras a dizer Ministério Público desapareçam por milagre, como as fotografias no Regresso ao Futuro 1. Numa situação que envolva senhas, impressos, requerimentos e papelada vária eu sinto-me muito aquém de todos os outros. Sou o Indiana Jones a tentar sair vivo de Ancara. É por isso que a vida me tornou num espectador dela mesma. A vida real é-me vedada por falta de esperteza e desembaraço e só me resta observar da varanda. Foi por essas e por outras que me agarrei à viola que os meus pais me ofereceram no Natal de 1990 como um náufrago se agarra a uma boia. Por falta de alternativa. Por uma sorte inacreditável e que nem sequer é propriamente merecida, encontrei um lugar no mundo através da música popular. Graças a ela, ando por aí como uma barata tonta de terra em terra e tenho sempre um prato de comida quente, cama e roupa lavada e a papelada toda em ordem. Não fosse isso e eu sentava-me no passeio à espera que a minha mãe me viesse buscar. Por esta sucessão de milagres, tenho mais facilidade em conceber um refrão do que a conceber a ideia de preencher uma folha de IRS. O mais certo era eu acabar um indigente, um pária, um inimputável. Benditos 10 minutos. Bendita chuva. Bendito saco amarelo e bendita bata azul. Se não fosse o vendedor de Comércios do Porto de saco de oleado amarelo e a máquina de costura da minha avó o que é que havia de ser de mim.

(Crónica publicada na VISÃo 1275, de 10 de agosto de 2017)