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Maria João Valente Rosa

Opinião

Maria João Valente Rosa

Demógrafa e Professora Unversitária

Verão em boa companhia

Ignorar os dados estatísticos, acreditando no que é dito sem possibilidade de confirmar, pode comportar sérios riscos. As consequências das tão faladas fake news são disso exemplo

Todos sabemos que nenhum número substitui uma pessoa. Nada substitui uma pessoa. Mas usar esta evidência para negar a importância dos números, insinuando que a análise de dados estatísticos “transforma as pessoas em números” ou que esvazia toda a riqueza de uma sociedade, é enganador.

Na realidade, os números das estatísticas de que falamos não são nem inimigos das pessoas nem números abstratos: refletem características da sociedade e comportamentos ou decisões dos indivíduos. Por isso, não é compreensível a antipatia que alguns parecem nutrir pelos dados estatísticos – mostrando-se até orgulhosos por não gostarem de “números” –, ao mesmo tempo que invocam gostar de pessoas.

Por outro lado, com a progressiva urbanização e globalização, compreender o mundo que nos rodeia exige ir para além do tradicional interconhecimento aldeão. Já ninguém pode contestar que o conhecimento completo das nossas sociedades precisa de “estatísticas”, ou seja, dos tais dados especiais – desde que credíveis e de qualidade – de forma a resumi-las e a evidenciar os seus elementos mais relevantes. Há quem afirme, aliás, que as estatísticas são já o verdadeiro abecedário do mundo moderno, pois, sem elas, andamos perdidos e dependentes do que outros nos querem contar.

Por último, ignorar os dados estatísticos, acreditando no que é dito sem possibilidade de confirmar, pode comportar sérios riscos. As consequências das tão faladas fake news, um termo que se tornou viral e que representa uma séria ameaça ao pensamento livre e à democracia, são disso exemplo. Perante tais perigos inimigos, o recurso a dados estatísticos credíveis pode fazer a diferença, pois, quando bem utilizados, são uma poderosa arma de combate.

Introduzir o tema das estatísticas em pleno verão pode parecer descabido. Mas não é!

O verão é uma boa altura para mudarmos alguns hábitos, que nos podem ser prejudiciais, e também uma boa altura para exercitar as nossas aptidões sociais, em conversas com os outros, nas quais normalmente procuramos um tema como assunto. Não raras vezes, esse assunto é sobre Portugal e os portugueses. E também não raras vezes, usamos a expressão “acho que” para formular uma opinião. Ora, para se ter uma opinião baseada em dados e factos reais, talvez seja útil pôr algumas leituras em dia.

Há uma leitura muito especial que aconselho: o Retrato de Portugal, edição 2017, recentemente publicado pela Pordata (www.pordata.pt), um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Com ele, são inúmeros os temas de conversa que se podem iniciar a partir de simples questões, como: Quantas pessoas vivem em Portugal? Sempre existiram mais idosos que jovens? Quantos nascem e morrem? Quanta riqueza produzimos? Há mais famílias? Somos um país de emigrantes? 
E de imigrantes? O casamento é um passo essencial para se ter filhos? Estamos mais escolarizados? A internet é mesmo para todos? O rendimento médio das famílias tem aumentado? Quem está mais em risco de pobreza: os jovens ou os idosos? Há mais médicos ou enfermeiros? E advogados ou magistrados judiciais? O número de GNR tem aumentado? Nos tribunais judiciais há mais processos findos ou pendentes? E sempre foi assim? A partir de quando a dívida das administrações públicas ultrapassou 100% do PIB? O valor da pensão mínima de velhice tem mesmo aumentado? Como tem evoluído o equilíbrio entre pensionistas e contribuintes? E o número de funcionários públicos? Quem são e o que representa a população inativa em Portugal? Há mais trabalhadores por conta de outrem a receber o salário mínimo nacional? Os empregadores têm menores níveis de qualificação que os empregados? O desemprego estrutural está a agravar-se? Portugal é um país de pequenas e médias empresas? Estamos a reciclar mais? Continuamos a ir com frequência ao cinema ou ao teatro? Viajamos mais? Há mais turistas portugueses que estrangeiros?

Fica a sugestão desta companhia de verão, recheada de histórias sobre o que somos e o país 
em que vivemos.