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Miguel Araújo

Grande é um elefante, uma girafa, a muralha da China... Uma molécula, se a perspetiva mudar. Estas questões são o universo todo. Chamar “grande” ao infinito é reduzi-lo infinitamente

Andava aqui com a ideia de uma canção, uma ideia bastante clara. Na minha cabeça, era uma boa canção. Mas depois fugiu-me e agora foi-se. 
Ia-se chamar “a empresa”. Sobre isso mesmo, uma empresa, uma “firma”. Baseado na promessa de vida da minha geração, mudança de paradigma. Eu tenho para mim que mesmo nas canções populares aparentemente mais superficiais se podem incluir aquelas que são as grandes questões da Vida. Amor, desespero, sonho, Deus… mais do que falar diretamente dessas coisas, as canções populares podem atender (e atendem) às questões fundamentais da vida. Tenho pena que a música me tenha fugido porque na minha ideia era uma música boa. Paciência.

Dizer “grandes questões” é reduzi-las a coisas passíveis de serem mensuradas. Grandes não. Únicas, Todas... Grande é um elefante, uma girafa, a muralha da China... Uma molécula, se a perspetiva mudar. Estas questões são o universo todo. Chamar “grande” ao infinito é reduzi-lo infinitamente.

No mundo, neste mundo, as coisas, e sua respetiva existência, começam e acabam. Não apenas no sentido de nascimento/morte, mas também no sentido de “esta caneta começa aqui e acaba ali, vai desta ponta até aquela.” As extremidades das coisas são aguçadas, definidas, definíveis, pelo menos de acordo com um denominador comum de sentido estreito. Por exemplo: Portugal continental vai do Litoral à fronteira com Espanha. Por exemplo, este cartão de débito: consigo sentir a sua extremidade, com a ponta do dedo. Começa aqui. Acaba ali naquela ponta. Dá esta volta toda ao lanho do seu retângulo. Mas há outra maneira de olhar para este cartão de débito, para este mundo e as coisas que lhe pertencem. Tem a ver com o que as coisas representam. Aquilo que o cartão representa. Se eu por exemplo for raptado por tuaregues no deserto de Dakar e conseguir saltar de uma carrinha de caixa aberta em andamento, conseguir desembaraçar-me das cordas que me atam as mãos e os pés, se conseguir por acaso deslocar-me até alguma ATM, rastejando durante horas ao sol, e por acaso tiver este cartão no bolso, e essa ATM pertencer a algum banco que tenha um protocolo com a Visa Electron, então este cartão pode representar a minha salvação, a minha vida. Onde começa e acaba a minha salvação, que é o que vale nesse momento este cartão? Como se desenha o meu resgate? Quanto pesa? E, por outro lado, se daqui a uns anos eu já não tiver conta no BPI, mas este cartão for teimando de gaveta em gaveta e for escapando à vala comum dos objetos em desuso, o que valerá? Podemos dizer: nada. Como se desenha o nada? Onde começa e acaba o nada? De que cor é o nada, e quanto pesa? Onde estão as suas extremidades aguçadas, que se podem aferir com a ponta dum dedo? Onde é que começa e acaba este cartão? Nada começa e acaba realmente, e as coisas, bem vistas, fundem-se umas nas outras, se a gente tiver o olhar devida e convenientemente desfocado. As coisas não são, vão sendo, as arestas das coisas são ilusórias e um dia eu consigo enfiar isto tudo num raio duma cantiga de três minutos que se vai chamar “a empresa”.

Crónica publicada na VISÃO 1273 de 27 de julho