Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Opinião

Capicua

Viver sem mar é como morar numa casa sem janelas. Nessa claustrofobia continental, que arfa por azul como ponto de fuga, e encontra no mar (como outros nas fogueiras) um magnetismo hipnótico, providencial para a higiene do olhar

O verão já vai alto e eu ainda não dei um mergulho. 
O estio é época de dura faina para quem vive do palco e o meu síndroma-de-sereia-seca está taco a taco com um valente défice de vitamina D.

Preciso de água como as plantas, só que salgada. Quando passo perto do mar e o vejo a entrar pela janela do carro, sinto uma espécie de sede, que não é de beber, mas de mergulhar. Todos os anos se repete a privação e todos os anos prometo a mim mesma um (utópico) verão na areia, só para ver se é possível fartar-me dele, e não fazer mais nada que não ler, dormir e flutuar.

Flutuar é aliás um dos prazeres da vida mais menosprezados e uma das artes mais intuitivas (porém delicadas) que podemos praticar. Para mim sempre foi fácil. É só estender o corpo na água como numa cama infinita, e senti-lo derreter para depois levitar, numa espécie de lençol fluido que nos embala docemente. Deve ser o mais perto de estar numa placenta, mas com todo um céu para contemplar. E em vez de ouvirmos um coração de mãe, ouvimos a conversa dos búzios, ou o nosso próprio murmurar, que a água devolve como uma canção de ninar engarrafada.

Sempre vivi perto do mar. Cresci a 500 metros do Atlântico, onde também cresceu António Nobre. Da janela virada para o porto de Leixões, gostava de ver a ponte móvel e a entrada dos navios, com seu uivo, sempre grave. De ver o buliço dos guindastes, descarregando troncos, carros, cereais. De ver as gaivotas invadir o recreio da escola em dia de tempestade. De voltar da praia sem sandálias. De mexer no sargaço regurgitado pelas ondas. De ver o brilho madrepérola dos grãos de areia incrustados na pele, como pedras preciosas em marfim. E de sentir o cheiro do mar permanentemente. Como uma confirmação de proximidade. Sobretudo no inverno, quando está tão bravo que cospe tudo o que não quer e a nortada nos fere os tímpanos com suas agulhas.

Acho que uma boa parte da minha identidade portuguesa está depositada nessa dependência. Nessa certeza de que viver sem mar é como morar numa casa sem janelas. Nessa claustrofobia continental, que arfa por azul como ponto de fuga, e encontra no mar (como outros nas fogueiras) um magnetismo hipnótico, providencial para a higiene do olhar.

Quando era pequena, num passeio a Sendim (Miranda do Douro), terra da minha família paterna, onde costumávamos ir para visitar os primos, comer posta, andar de burro e matar saudades, encontrámos, sentado à porta de uma velha casa transmontana, um senhor de bengala e chapéu que o meu pai reconheceu. Era Ti Abílio Pepe, ancião de sotaque mirandês, que poderia ser uma personagem do Astérix se a Gália fosse aqui, e do qual nos aproximámos com reverência.

O meu pai disse quem era, apresentou a criança, explicou que era dos Dau (porque ali as famílias têm outros nomes que não os do registo civil) e, depois de uma conversa breve, pontuada por expressões que não consegui entender e por frases a que a surdez do senhor não deu seguimento, despedimo-nos. Seguiu-se a confidência: “Sabes Ana, o Ti Abílio Pepe nunca viu o mar.” Como assim?! Se eu, que podia contar os meus anos com os dedos de uma só mão, via o mar todos os dias, como é que aquele senhor enrugado como o tronco de uma árvore centenária, com olhos de quem já viu tudo nesta vida, sentado à porta daquela casa torta, que parece estar ali desde que os celtas chegaram à península, nunca comeu um supermaxi ao pé da bola nívea?! Lembro-me de ter vontade de voltar atrás para o meter no carro e levá-lo connosco. Ou de pelo menos tentar explicar-lhe o mar. Mas como é que se descreve tamanha infinitude, aquele murmúrio, e a sua fúria quando revolto? Como é que se explica a maresia? Não é possível. 
E se for, só Sophia. Ti Abílio Pepe morreu sem ver o mar, mas o verão não há de acabar sem que eu me desforre, mergulhando por mim, por ele e pela promessa de Sophia (que repito muitas vezes): Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.

Crónica publicada na VISÃO 1272 de 20 de julho