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A História do Hip Hop Tuga

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Hoje o Rap é o estilo de música mais ouvido no mundo e o favorito de grande parte da juventude portuguesa. Uma das razões, é o facto de o Rap falar da vida real, com a linguagem real

Há uns dias participei num grande concerto chamado A História do Hip Hop Tuga que juntou dezenas de rappers portugueses de várias gerações. A ideia era fazer uma espécie de viagem no tempo, recuperando os temas mais emblemáticos do cancioneiro nacional por ordem cronológica, até chegar ao Rap que se faz hoje. Foi emocionante! Sobretudo por ver no palco General D, a cantar Black Magic Woman ou os Black Company com o eterno Não Sabe Nadar, recordando que, nestes quase trinta anos de evolução, o papel dos pioneiros foi fundamental.

O Rap nacional, nascido no princípio da década de 90, mostrou de imediato que a língua portuguesa seria a sua matéria-prima e isso acabou por marcar a própria história da música portuguesa. Já que, nas décadas seguintes, quando ainda não era cool cantar em português, os rappers portugueses insistiram em mostrar que era possível importar linguagens musicais diferentes, fazendo uma apropriação local, através da utilização nosso idioma e das nossas referências culturais. Graças a essa militância, construíram um enorme património musical, que além de ser no nosso idioma, fala sobre a nossa realidade.

A vida nos bairros periféricos de Lisboa e Porto, o racismo e as questões identitárias dos luso-africanos, a escola, a família, a criminalidade, os estados de espírito individuais e coletivos, a adolescência e a entrada na idade adulta, a política e os políticos, a(s) crise(s), os costumes, a religião, o amor e o desamor, a sexualidade, a celebração, a redenção e a filosofia da vida quotidiana... Muitos temas abordados e documentados em música. Num cancioneiro que conta as micro-histórias que fazem a história de Portugal nas últimas décadas e que, sendo precioso, tem sido muito pouco considerado.

Hoje o Rap é o estilo de música mais ouvido no mundo e o favorito de grande parte da juventude portuguesa. Uma das razões, é o facto de o Rap falar da vida real, com a linguagem real. O português de todos os dias, com calão incluído, em discurso direto e com palavrões se for preciso. Partindo dessa ideia subversiva, de que nem só o português canónico é digno de ser matéria-prima para a criação artística e que, da eliminação das fronteiras entre artistas e público (através do estímulo ao espírito DIY), todos os putos podem fazer música. Não tendo voz para cantar, não tendo formação musical, não tocando instrumentos, não sendo muito escolarizado, todo o aprendiz de Rapper pode fazer as suas letras, contar a sua história, falar sobre o que o rodeia e espalhar a sua mensagem. É esse o poder do Hip Hop e foi por isso que se espalhou pelo mundo com a força de uma praga bíblica.

No concerto, esse poder invadiu o palco de forma emocionante. Ano após ano revisitado, música após música cantada em uníssono, entraram no palco os Mind Da Gap, os Dealema, o Sam the Kid e até Gabriel o Pensador (rapper brasileiro de grande influência nos primórdios da cena portuguesa), para mostrar que foram precisos muitos corações dedicados, para que o Rap passasse a ser considerado música, para que integrasse os cartazes dos grandes festivais, para que se tornasse aposta das grandes editoras, para que tivesse a atenção da imprensa especializada, e para que todos os nossos sonhos de adolescência passassem a ser uma possibilidade.

E já no final, quando entraram os rappers mais novos, foi claro que tudo tinha valido a pena, e que a vitalidade do Hip Hop nacional não está só na história de que tanto nos orgulhamos, mas sobretudo na faísca nos olhos dos putos, na sua fome de microfone, e no espírito de auto superação que (n)os move a todos, individual e coletivamente.

Só foi pena eu ter sido a única mulher em palco, entre dezenas de rappers de todas as gerações. Acho que esse é, sem dúvida, o nosso maior fracasso histórico enquanto movimento e espero que daqui a trinta anos, se houver outro concerto do género, tenhamos esse problema finalmente resolvido.

(Crónica publicada na VISÃO 1270 de 6 de julho)