Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Fio de Ariadne

Opinião

Miguel Araújo

Todos nascemos com um fiozinho de Ariadne agarrado, um frágil cordão de linha que nos prende ao lugar de onde nascemos. À casa, à família, aos lugares da infância

Marie-Lan Nguyen

Teseu foi o herói grego que enfrentou o Minotauro e salvou a princesa Ariadne.

A grande dificuldade não era propriamente enfrentar a monstruosa e bovina criatura, era mesmo o labirinto onde este ardiloso vilão mantinha cativa a desditosa princesa. Todos os que se aventuraram pelo labirinto de Dédalo acabavam por se perder. Teseu foi salvo por um fiozinho que foi largando pelo caminho e que lhe permitiu regressar ao lugar donde havia partido na sua heroica empreitada. O fio de Ariadne é o fiozinho que permite regressar sempre ao local da partida, desfazendo o caminho que foi feito. Todos nascemos com um fiozinho de Ariadne agarrado, um frágil cordão de linha que nos prende ao lugar de onde nascemos. À casa, à família, aos lugares da infância.

Calcorreamos o planeta como quem se aventura por um labirinto, mas há sempre o tal fiozinho umbilical a ser constantemente recolhido pelo carreto da raiz, exercendo em cada um de nós uma força, confortável e incómoda, que puxa levezinho, constantemente. Mas depois, com o passar do tempo, as pessoas e os lugares vão desaparecendo aos poucos, até que esse fio, de tão esticado, se parte em definitivo. Talvez seja isso a entrada na “vida adulta”. Um dia reparamos e, sem dar por isso, passamos nós próprios a ser o carreto que puxará o fiozinho de nylon que agarrará os nossos filhos à casa da partida. É quase como deixar de ter direito ao nosso lugar, para passar a ter o dever de ser o lugar de outros. Passar a ser eixo. Se uma pessoa fizer isso direitinho um dia os nossos filhos recolhem o fio deles e embrulham tudo num cesto de boas lembranças, que é como as minhas são. Os meus pais, as praias de Ofir, a casa da minha avó, principalmente a casa da minha avó. Bizarra, com pessoas únicas, originais, varridas. Até o fantasma dum velho havia por lá. Era uma casa de mulheres, comandada por mulheres. A normalidade que me foi oferecida logo à nascença distanciava-se muito da norma que pude mais tarde constatar na infância dos meus amigos. O vórtex implacável que puxa tudo e todos para o epicentro da norma não passou seguramente por aquela casa. Do que eu me safei. Não trocava a minha infância por mais nenhuma. O fio de Ariadne que me prendia à Giesta pode ter partido de tão esticado pelas andanças da vida mas se me quiserem levar as lembranças vão ter que se haver com o chicote de couro que a minha avó tinha pendurado na porta de trás da dispensa para correr com os gatunos. Espero que os meus filhos possam um dia pensar o mesmo daquilo que a minha mulher e eu estamos a tentar fazer por eles.

(Crónica publicada na VISÃO 1269 de 29 de junho de 2017)