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Clara Soares

Opinião

Clara Soares

Jornalista e Psicóloga

Masculinidade não se mede aos palmos

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Ou como o pénis de um homem não conta toda a sua história mas é um ponto de partida para ele se dar a conhecer, na sua mais plena e humana fragilidade

Em tempos de suposta igualdade de género, não me lembro de ninguém que não aprecie uma boa piada sexista. Se eles não resistem a parodiar a condução da loura que os ultrapassa em hora de ponta, já elas não se fazem rogadas sempre que, na autoestrada, se deparam com um macho alfa (será?) no seu topo de gama. “Carro grande, pilinha pequena”. Quem diz carro, diz bicicleta, prancha, drone, tablet, ou qualquer outro gadget que sirva de símbolo exterior de grandeza. “O meu é maior que o teu”. Esta evidência remonta aos primórdios da humanidade. Dos monumentos em pedra, com formas fálicas, até aos amuletos, em diferentes culturas, passando pelas torres nas grandes cidades, a obsessão pelo “grande” e o “maior” sempre esteve associada a um elemento de proteção e, simultaneamente, de exuberância, virilidade e pujança, que afugentam candidatos a adversários ou rivais.

A necessidade de comparar-se a toda a hora e de medir forças é, supostamente, ou ainda, “de homem”. E, mesmo que seja cada vez mais aceite a ideia de que eles também choram, e ainda bem, persiste a ideia de que a valentia e o tamanho importam, e muito. Sempre houve homens que nunca se reviram nesta referência identitária e fizeram-no saber, sem falsas modéstias. Caso de Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta Fernando Pessoa: “Porque eu sou do tamanho do que vejo. E não, do tamanho da minha altura”. E, contudo, o tamanho sempre contou nas profundezas da alma masculina. Qual é o português que resiste a fazer um manguito à Zé-povinho quando se sente oprimido ou insultado? O enfático “Toma!” anda a par e passo com o gesto, mais ou menos universal, feito com dedo médio (o maior que tem a mão) bem erguido, capaz de fazer frente a potenciais ameaças. E até já vimos essa imagem representada por uma mulher, mostrando, assim, o quão está empenhada em mostrar o seu poder.

Poderosos ou ansiosos?

Apesar de o fenómeno de medir, mostrar e comparar não ser novo, ele ganhou outra visibilidade com os media sociais. Dos sites de encontros às apps da moda, que permitem partilhar momentos e mantê-los online por algumas horas, foram muitos, e de todas as idades, os que se renderam à febre dos “dick pics” (fotos ou selfies de pénis), enviados como se não houvesse amanhã e, em muitos casos, após meia dúzia de piropos teclados entre estranhos.

David Ley, psicólogo clínico e autor do livro The Myth of Sex Addiction, admite que a moda de enviar fotos do dito sem que tal seja solicitado não é necessariamente algo que o sexo feminino aprecie. Muitos homens e rapazes fazem-no, possivelmente, por projetarem o seu interesse sexual nas mulheres e achando que podem conseguir a atenção delas com o gesto ousado. E, mais ainda, pensando que essa atitude seria bem acolhida, e mesmo desejada, por elas (uma espécie de prenda-convite).

Com a generalização do sexting - troca de mensagens sexualmente sugestivas, com ou sem conteúdo sexual explícito - houve logo quem se lembrasse de aprofundar o assunto. Os resultados, publicados no Journal of Sexual Research, em maio de 2016, não abonam muito a favor das atitudes destemidas deles (receio que “cavalheiros” não seja o termo adequado) e percebe-se porquê. Após solicitar a 459 estudantes universitários heterossexuais e solteiros que respondessem a um inquérito online sobre os seus hábitos de sexting, a equipa de investigadores liderada pelo psicólogo Robert Weisskirch, da universidade da Califórnia, concluiu que existia uma relação direta entre a ansiedade ou medo de uma avaliação negativa e o envio de fotos e vídeos com nudez com texto a propor sexo.

A prática que parece ter conquistado o estatuto de ritual de corte, sobretudo entre frequentadores de apps como o Grinder (para encontros homossexuais), pode estar longe de ser consensual, mas num artigo recente do Huffington Post, uma sexóloga questiona que o registo seja exclusivo ou dominante no sexo masculino e admitindo até que as fotos dos genitais (de ambos os sexos) se estejam a converter num convite erótico digital aceite com cada vez mais naturalidade. Dito isto, onde ficam os falsos pudores? E como se sentirão os homens e seus “mais que tudo”, um entre muitos concorrentes no mercado da sedução?

A prova dos Óscares

A última novidade acerca da parte da anatomia masculina que tanto dá que falar foi revelada pelo britânico The Guardian: a famosa fotógrafa e contadora de histórias Laura Dodsworth, que já tinha dado cartas com o seu projeto Bare Reality, em 2014 (com seios de 100 mulheres), aventurou-se, após o seu divórcio, em fotografar a genitália de uma centena de homens, com idades entre os 20 e os 92 anos, e a seguir quis falar com eles. Daí resultou o livro Manhood: The Bare Reality e onde, literalmente, cada pénis conta uma história. “As fotos levaram 10 segundos e depois passei 30 a 60 minutos a entrevistá-los”, revelou Laura ao jornal.

O que descobriu a autora da iniciativa que é, no mínimo, provocadora? Alguns insights, a partir dos dados recolhidos:

- A diversidade no tamanho, forma e paisagem púbica é maior do que a autora pensava

- Muitos ficaram intimidados após verem, em crianças, o pénis do pai pela primeira vez

- Há homens para quem o seu “Óscar” é um barómetro do estado de saúde

- Muitos ainda se sentem inseguros por comentários cruéis de que foram alvo na infância

- Outros sentiram vergonha quando estavam no balneário, por acharem o pénis pequeno

- Atrás da anatomia, vêm questões de identidade, privacidade, humilhação e aceitação

- Eles sofrem com questões de desempenho, desejo, doença, identidade e rejeição

No final, fica-se com a impressão de que aquelas partes dizem tudo, ou quase tudo, na forma como aparecem na fotografia: sem artifícios e na sua mais plena vulnerabilidade.

Quem vê pénis não vê corações. Daí que nunca cheguemos a saber, sem ler (e ainda bem), qual daqueles é o orgão que pertence ao viciado ao sexo, em tempos ameaçado de ficar sem ele; ao padre, que viveu uma experiência sexual gratificante nos tempos de seminarista; ao homem que o tinha pequeno até ao dia em que tudo mudou e ao transgénero que se submeteu a uma cirurgia.

Só um homem sabe ao certo quantos nomes e alcunhas já teve ou pode ter esse seu território pessoal e intransmissível. Mesmo que não o mostre, todo o homem sabe que a partilha mais excitante e satisfatória se consegue com o corpo inteiro, cabeça e coração incluídos. É por isso que não há que temer a proliferação de "pilinhas", a sua despersonalização por ficarem confinadas à categoria de objetos. De alfa a ómega, a masculinidade está viva. E deseja proximidade.