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Em defesa do cinzento

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O mundo digital é o mundo das decisões imediatas e dicotómicas, das questões políticas reduzidas à sua essência mais simplista

O cinzento não tem a sorte do amarelo que sempre teve o seu Van Gogh. Para não falar do cristo de Gauguin. O cinzento tem má fama, uma reputação enfadonha e não é uma cor a que alguém, no seu perfeito juízo, queira ver-se associado. E, no entanto, faz falta, o raio do cinzento. Mas já cá volto.

Deixem-me, primeiro, derivar para outro lado. Tive a sorte, nos idos de 90, de conhecer e de conversar com Nicolas Negroponte, provavelmente o homem que mais profundamente compreendeu a essência do que é ser digital. E a essência do ser digital é – abrevio estupidamente – ser binário. Ser zero ou ser um. É assim obviamente para toda a informação, transformada numa imensa cadeia de zeros e uns que se reproduz, transmite, armazena e manipula de forma infinitamente mais rápida, barata e eficiente do que poderia acontecer no mundo analógico. Aliás, nunca, como hoje, se produziu, se processou, se transmitiu tanta informação. Informação, que não conhecimento. Mas esses são outros quinhentos. O ponto essencial é outro. Nunca fui dado a grandes determinismos tecnológicos, mas sou obrigado a reconhecer que, com a flexibilidade e a rapidez que são as características maiores do mundo digital, mudou também, aos poucos, a nossa forma de pensar. Essas é que são essas. Forçados a pensar num tempo que é o do urgente e o do imediato, inundados com informação que não conseguimos processar e sobre a qual não conseguimos refletir, pensamos e decidimos, cada de vez mais, de forma binária, dicotómica. Somos contra ou a favor do Brexit, do Euro, da Palestina ou de Israel, dos acordos de Paris. O tempo do pensamento mudou radicalmente, e com ele, mudou – chego finalmente onde quero – o tempo e a natureza da política.

Há com certeza muitos deserdados da globalização e enormes desafios relacionados com as emigrações. Há medo do amanhã e há medo do outro. Mas é preciso ir procurar mais fundo para perceber a profunda disfunção política que assola o mundo ocidental.

Pois bem, gostemos ou não, e esta é só a minha modestíssima opinião, o populismo, e o diretismo a que implicitamente faz apelo, são as formas mais eficazes de fazer política num mundo binário. O mundo digital já não é o mundo do tempo rural, o mundo do edifício demoliberal nascido na América do século XVIII, o mundo da representação, o mundo da deliberação pensada, do consenso recatado. O mundo digital é o mundo das decisões imediatas e dicotómicas, das questões políticas reduzidas à sua essência mais simplista, o mundo – do preto e o mundo do branco. A bota não bate pois com a perdigota. A tensão é evidente: as nossas instituições democráticas, sabiamente erigidas, são pensadas para um tempo rural e um mundo de pensamento multifacetado e complexo; a política digital regressa a um maniqueísmo pré-iluminista e reclama decisões instantâneas, irrefletidas e dicotómicas.

Não me perguntem porque eu não sei. Continuo apegado ao velho ideal demoliberal e não me é fácil imaginar a reforma institucional que precisamos de fazer para não ceder aos cantos e encantos da instantaneidade do populismo dicotómico. Limito-me a intuir que temos de resgatar o cinzento. As nuances, as subtilezas, as contradições e até os paradoxos sem os quais não há pensamento digno desse nome e nem pode haver, verdadeiramente, política.

(Artigo publicado na VISÃO 1266, de 8 de junho, de 2017)