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Luton

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Ninguém gosta de aeroportos, são currais desumanos que cospem as pessoas urgentemente de lá para fora, num cordão humano de gente ordeira mas irrequieta, com pressa, a arrastar bagagens de mão

No ano passado fui tocar a Londres e o avião aterrava num aeroporto novo para mim: Luton.

Iamos três: o Bruno, o Chico Francisco e eu.

À saída do aeroporto havia uma maquineta com 3 botões, que servem para aferir a satisfação do cliente face aos serviços prestados: verde se a pessoa tinha gostado da sua experiência no aeroporto (atendimento, simpatia, tempos de espera, essas coisas), amarelo se tinha sido mais ou menos ou vermelho caso a experiência naquele aeroporto periférico tivesse sido manifestamente má. É daquelas coisas em que a turba nem repara. As pessoas recolhem as suas bagagens e desarvoram dali para fora, com pressa de sair dali. Ninguém gosta de aeroportos, são currais desumanos que cospem as pessoas urgentemente de lá para fora, num cordão humano de gente ordeira mas irrequieta, com pressa, a arrastar bagagens de mão. É gado tocado à vara dali para fora. Essa maquineta de sufrágio de satisfação do cliente deve passar quase sempre despercebida. Foi uma daquelas ideias que as pessoas nas empresas têm. Meter lá uma máquina dessas. Quem carrega nesses botões? Dessa vez o Chico carregou, por graça. Carregou no vermelho num impulso imponderado de criança traquina que larga uma bombinha de mau cheiro no meio do recreio da escola.

Foi uma coisa daquelas que se faz acompanhar de um sorrisinho inocentemente maquiavélico. A nossa experiência, de uma forma geral, no aeroporto de Luton, tinha decorrido dentro dos parâmetros da mais corriqueira normalidade. A máquina registou uma ocorrência enviesada da realidade. Ficou ali nos registos. Alguém é pago para analisar os dados que brotam dessa traquitana. Alguém vai olhar para aquilo com olho estatístico e vai processar aqueles dados.

Aquele vermelho vai acabar num diagrama de Venn. Conceitos abstratos vão ser cruzados. Horários, proveniência dos voos, fichas do pessoal. Há gente que vai ser convocada para uma reunião. Há um responsável de departamento que vai ser apoucado através de duras, insensíveis e modernas palavras de desprimor. À frente de colegas e subordinados. Essa pessoa vai chegar a casa triste, abatida de estatística e procedimentos menos bons. Esse homem (será homem?) vai descarregar na mulher. A mulher não contava que nesse dia ele chegasse tão tarde. E ele vai dizer coisas como "alguém tem que pôr pão nesta mesa". E ela vai dizer que ele nem sequer passou e pegar nas tiras de frango fritas que seriam o jantar. Pelos vistos estava combinado. O filho ia ter teste de história inglesa no dia seguinte. Já se interessa pouco por história. Nem sequer é inglês e para ele Tudor é a marca das baterias velhas e peçonhentas da garagem do avô nos agostos em Alvaiázere. Vai falhar no teste e vai enfiar um dedo no olho de uma rapariga de olhos azuis, numa daquelas zaragatas de escola.

Essa rapariga vai chegar a casa a chorar. Há um pai que já está por aqui com chatices na porcaria da empresa de armazenagem de frios.

Esse pai que também é chefe de departamento vai despedir alguém em virtude da vermelhidão desse olho, em última análise vai ser essa a razão. A mulher (será mulher?) vai perder o visto, vai ser deportada e vai voltar com o rabo entre as pernas para o país de onde a mãe bem lhe tinha avisado que nunca deveria ter saído. Acabou-se Londres.

A vida nessa casa (se é que podemos chamar àquilo casa) vai-se tornar mais ou menos impossível. Vai depender dos dias e das diabetes da mãe. Um dia destes a rapariga ainda faz uma asneira e depois arrepende-se. Quer dizer, nem se vai arrepender porque já não vai a tempo de se arrepender. Pelo menos as pesquisas recentes do google dessa rapariga indiciam coisas muito sinistras.

Caraças, Chico Francisco, custava tanto ter carregado no raio do botão verde.

(Crónica publicada na VISÃO 1265, de 1 de junho de 2017)