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As palavras, como as pessoas, têm antepassados, que nascem e morrem e, pelo meio, dão à luz. Uma das coisas boas dos avós é usarem palavras antigas

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Já repararam que avô e avó, juntos e no plural, convergem no feminino avós, ao contrário da regra? Parece que é por causa da evolução dos vocábulos e da sua história complexa. É que as palavras, como as pessoas, têm antepassados, que nascem e morrem e, pelo meio, dão à luz. Uma das coisas boas dos avós é usarem palavras antigas, avós das nossas, como eles, que nos lembram que a língua é um organismo vivo, como nós.

Tenho muitas saudades dos meus.

De ouvir a avó Sofia dizer envelope ou garage à francesa (para me lembrar que há palavras migrantes, que refazem a sua vida noutro chão ao ponto de parecerem autóctones). Brunir para passar a ferro, coturnos para meias, cianoacrilato para supercola e “canudo!” para todo o tipo de estupefação.

A minha avó Sofia, que em criança era maria-rapaz, punha os dedos na ficha (de 110 volts) e engolia carrinhos de linha para puxar o fio de volta pela boca. Dizia que queria ser homem quando fosse grande (para poder ser livre). Entre os seus feitos, consta o facto de ter sido uma das primeiras mulheres licenciadas em Matemática no País, além da mais destemida exterminadora de aranhas, centopeias e todo o tipo de bicheza que já conheci.

Era uma avó carinhosa, com paciência para jogar mil vezes ao jogo dos cartõezinhos, em que é preciso memorizar e encontrar os pares. Com a sua cozinha simples, foi responsável por quase todas as memórias gastronómicas da minha infância: as melhores batatas assadas do mundo, leite com groselha, biscoitos de Valongo, salada de alface com a dose exata de vinagre e fatias de regueifa molhadas em chá preto fraquinho.

A minha avó Sofia não gostava de surpresas. Queria a vida “como o costume” e casou com o primo Alexandre que, além da mesma inteligência e frugalidade, partilhava do gosto pela rotina. Eles eram os perfeitos companheiros. Ela não conduzia, ele não ia a lado nenhum sem ela para indicar o caminho. Ele vinha almoçar a casa e ela levava-o ao portão, aproveitando para trazer as cartas do correio. Ao sábado de manhã comiam um croissant no carro, em frente ao mar, a ouvir a Antena 2. Ao domingo de manhã faziam juntos dezenas de quilómetros de bicicleta, e à noite comiam tostas mistas com mostarda Savora e uma cervejinha.

O avô era uma pessoa cheia de talentos. Consertava todo o tipo de geringonça, construía móveis, fazia fotografia e programava bonequinhos em zeros e uns no Spectrum só para nós vermos o “amiguinho”. Gostava de som. Tinha uma grafonola à manivela e um walkman da Sony. Bicicletas, fotografia, móveis de design nórdico, gadgets... Se fosse hoje dir-se-ia que era um hipster. Para nós era o Bú Lechandre.

O Bú Bilo não conheci. Mas sei que era um pai carinhoso, um marido apaixonado e que roubava as palmatórias das escolas que visitava, na qualidade de inspetor, para fazer desaparecer as ferramentas de castigo.

Com a Avó Geninha tive a sorte de conviver, sobretudo na velhice. Trabalhou 36 anos como professora primária, teve 5 filhos, 12 netos, mas nunca teve grande paciência para crianças. Talvez por isso, ou porque a idade lhe suavizou o mau feitio (do qual partilho), só nos aproximámos mais na adolescência, mas aprendi a admirar a sua independência, a apreciar a sua personalidade particular, o seu ar altivo e ligeiramente distante, e a sua evidente beleza. As mãos bonitas, de unhas pintadas, os lábios recortados, as camisas com laço na gola e a carteira, sempre a seu lado, até da mesa para o sofá. Uma senhora!
Tinha uma linda caligrafia e uma gaveta cheia de lápis e cadernos novos, que era para mim como a arca do tesouro. Gulosa, como eu, adorava comer jesuítas e oferecer guarda-chuvas de chocolate no Natal. Reza a lenda que foi a primeira mulher em Braga a usar collants e a ir ao café. Vinda do Porto e ainda pouco afeita ao conservadorismo local, ia tomar o seu cafezinho de todos os dias, até que o padre lhe disse: “Dona Maria Eugénia, olhe que aqui as mulheres não vão ao café!” A resposta foi pronta: “Senhor Padre, quanto às mulheres não sei, mas eu vou!”

(Crónica publicada na VISÃO 1264, de 25 de maio de 2017)