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Subsídios para a biografia de Dinis Machado

A avó do Dinis dirigia uma casa de prostituição onde ele comia em miúdo com as raparigas que lá trabalhavam e das quais falava, é evidente, com o maior respeito. Levei-o para minha casa (eu nessa época estava sempre a levar gente para casa) onde ele ainda viveu longos meses, obriguei-o a escrever na mesa em que eu escrevia, alimentado a tabaco e a água das pedras

Susa Monteiro

O Dinis Machado, que foi toda a vida um miúdo do Bairro Alto, nos modos, nas partilhas, na roupa, que escreveu um livro maravilhoso, 
“O que diz Molero”, e praticamente, depois disso, não escreveu mais nada

– Porque é que não escreves, Dinis?

– Não me apetece

foi abordado uma vez, e eu a assistir, por um homem que lhe pediu cigarros na rua. 
O Dinis tirou o maço da algibeira, abriu a prata, examinou o interior a contar baixinho, somando o que lá estava dentro, e acabou por responder, de cara triste

– Eh pá não posso, só tenho dezoito

afastando-se a puxar-me o braço enquanto o homem se amargurava com pena dele só ter dezoito. A avó do Dinis dirigia uma casa de prostituição onde ele comia em miúdo com as raparigas que lá trabalhavam e das quais falava, é evidente, com o maior respeito. Levei-o para minha casa
(eu nessa época estava sempre a levar gente para casa)
onde ele ainda viveu longos meses, obriguei-o a escrever na mesa em que eu escrevia, alimentado a tabaco e a água das pedras, de vez em quando pedia-me

– Ó Tónecas

(nunca ninguém me tinha chamado Tónecas)

– Vai ao Santini buscar um gelado para a gente que é peitoral

eu lá lhe trazia o medicamento, de morango ou baunilha, que ele tomava numa repugnância de óleo de fígado de bacalhau

– Não é que me apeteça mas a saúde está primeiro

tirava o lenço do bolso, puxava da garganta uma escarreta que provava os efeitos benéficos do tratamento

– Já está a dar resultado, Tónecas

e lá voltava, enfastiado, ao papel, continuando um texto chamado “Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez”, Alfredo Marceneiro que nós encontráramos uma noite no seu Bairro Alto, sentado na berma do passeio, perdido de bêbado, e para qual o Dinis avançou a abraçá-lo

– Você é um génio.

O outro olhou-o sem o ver, oculto atrás de uma névoa de tinto, com o Dinis inclinado para ele

– Você é um génio

o Dinis

– Sabia que é um génio, você?

enquanto eu tentava puxá-lo

– Larga o homem que ele nem sequer te ouve

o Dinis insistia, inabalável

– Sabia que é um génio não sabia?

e foi um castigo para o arrancar dali

– Temos de tomar conta do Marceneiro que isto está cheio de cámones
lá o arrastei com ele protector

– E se algum cámone grosso lhe dá uma azevia na pantufa, já viste?

a procurar cámones fardados de marujos pelas redondezas

– Temos de encontrar o meu irmão Zéca que é presidente do Lisboa Clube Rio de Janeiro

uma associação desportiva que se dedicava sobretudo ao boxe, na esperança de achar um peso-pluma que ficasse junto a Alfredo Marceneiro em funções de guarda-costas, o irmão Zéca pequenino, gordo, de bigode, tipo Dupont e Dupond, pertencente a essa categoria de carecas que puxam o cabelo da orelha esquerda até à orelha direita

(agora toda a gente rapa a cabeça)

não estava, tinha ido acompanhar um peso-mosca com futuro a um combate qualquer em Alhos Vedros

(ainda haverá combates em Alhos Vedros, pelo menos foi esse o nome que um porteiro, a escarrar sobre o ombro, nos disse, Alhos Vedros, nunca vi escarrar tão bem neste mundo)

o Dinis insistia que, sem guarda-costas, se achava na obrigação de cumprir, ele mesmo, essas funções, e lá acabei por o trazer para casa, argumentando que não podia deixar o “Discurso a Gabriel García Márquez” a meio, ele

– O Marceneiro é mais importante do que qualquer livro

até o conseguir enfiar em casa diante do papel, prometendo-lhe um suplemento de gelado se ele se portasse bem. Sentou-se a contra-gosto

– Com a preocupação com o Marceneiro como é que queres que me concentre?

a olhar a parede em frente

(quem não gosta de olhar paredes vazias às duas da manhã?)

até a primeira frase lhe aparecer no bestunto, ajudando-o a esquecer o fadista, os cámones, o mano Zéca e o Lisboa Clube Rio de Janeiro. Felizmente havia um resto de Santini no frigorífico, o Dinis de caneta suspensa

– Se calhar estou um bocado grosso não achas?

e eu não achava nada, ocupado com a ideia do peso-mosca, em Alhos Vedros, a preparar um um-dois e um gancho da esquerda fatais que levariam o Bairro Alto aos cumes da fama em todo mundo, isto é à outra margem do rio onde uma aurora penosa, de outono, ia começar daqui a nada.

(Crónica publicada na VISÃO 1263, de 18 de maio de 2017)