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Duas Franças irreconciliáveis

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Pascal Rossignol / Reuters

Nestes 15 dias não houve manifestações de oposição à FN e a Marine Le Pen como em 2002, quando o seu pai, Jean-Marie, chegou à segunda volta. Houve, sim, manifestações muito violentas de jovens que gritavam: «Nem Le Pen nem Macron, nem pátria nem patrão»

Se os franceses (e até os europeus) estão divididos como raramente aconteceu desde a II Guerra Mundial e também apreensivos quanto ao resultado da segunda volta para as eleições presidenciais, há pelo menos um elemento que os contenta a todos: a 7 de maio a campanha chega ao fim. Uma campanha em que o velho mundo da política francesa tem vindo a morrer mas cujo estertor impede um mundo inteiramente novo de nascer. Gramsci, que inspira estratégias em todos os quadrantes políticos deste país, dizia que neste interregno de crise se instalam «os fenómenos mórbidos mais variados». É esta perspetiva que tanta apreensão suscita para os próximos meses.

Esta segunda volta coloca frente a frente duas Franças dramaticamente irreconciliáveis. De um lado, a extrema-direita de Marine Le Pen, auto-promovida a porta-voz da população mais modesta; e, do outro, Emmanuel Macron, o prodígio político preferido pela classe média alta com o seu movimento En marche!. Ora, nenhum dos dois finalistas representa os partidos hegemónicos da V República, o Partido Socialista (PS) à esquerda, e Les Republicains (LR) à direita (herdeiro longínquo do gaullismo fundador da França do pós-guerra). A França vive assim o desfecho do processo de decomposição da velha clivagem esquerda/direita que se tem desenrolado desde as autárquicas de 2014.

Na nova clivagem, opõem-se dois blocos, um elitista e outro popular, correspondendo a dois vastos conjuntos sociais. Note-se que o sistema institucional autoriza sobressaltos muito sérios dos velhos partidos: o escrutínio maioritário a duas voltas obriga sistematicamente a formar alianças na segunda ida às urnas para a obtenção de uma maioria, que é quase sempre absoluta. Mas nestes 15 dias entre os dois votos, tanto o PS como o LR parecem mais presas de aves de rapina, do que eventuais parceiros. É neste contexto que a França Insubmissa de Jean-Luc Mélanchon explica ter recusado dar instruções de voto para a segunda volta, apesar das críticas severas que essa escolha lhe merece. Mas a irrupção dos Insubmissos na linha dos Indignados apenas confirma a nova configuração política: com uma oposição frontal às instituições europeias e ao peso crescente dos interesses das grandes empresas mundiais na ação governamental, Mélanchon obteve 6,2 milhões de votos e uma quarta posição na primeira volta. E a sua formação esmaga agora o aliado que lhe serviu de rampa de lançamento, o velho partido comunista francês.

Nas alianças da clivagem esquerda/direita, havia possibilidades de passagens entre os dois pólos. Na nova clivagem, os dois blocos defrontam-se, detestam-se, sobrepõem-se num tramado conflituoso anunciador de lutas políticas e sociais explosivas. Um, urbano, diplomado e abastado, está instalado no campo dos que ganham com a globalização da economia, enquanto o outro suburbano ou rural, menos favorecido, sente-se relegado para o campo dos perdedores. Mais preocupante ainda, a 7 maio, poucos são os leitores contentes com a escolha que têm – e que fizeram. A Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen foi bastas vezes preterida na primeira volta por eleitores que viram nos dons de tribuno de Mélenchon uma expressão mais vigorosa e articulada da cólera deles.

Por seu lado, a revolução liberal prometida por Emmanuel Macron só lhe mereceu 24% dos votos na primeira volta e não suscita a adesão de todos os seus eleitores. Prova desta deliquescência, nestes 15 dias não houve manifestações de oposição à FN e a Marine Le Pen como em 2002, quando o seu pai, Jean-Marie, chegou à segunda volta. Houve, sim, manifestações muito violentas de jovens que gritavam: «Nem Le Pen nem Macron, nem pátria nem patrão».

Foi possível crer que o debate entre os dois finalistas, a meio da semana, teria sido um ponto de viragem definitivo para a opinião pública. A enorme agressividade de Marine Le Pen, diretamente proporcional à sua incompetência, desfez os anos que passou a pincelar uma camada de verniz de respeitabilidade na FN, fundada, recorde-se, pelo pai com meia dúzia de sequazes do regime de Vichy. A sua ignorância dos dossiers desfez os pontos que marcara com a sua nova abordagem, mais conciliatória, do euro e da Europa. Em contraste, a calma e a competência de Emmanuel Macron deram ao jovem político a aparência de uma estatura presidencial que lhe faltava. Mas a personalidade de Macron - delfim do Presidente cessante, o socialista François Hollande, de quem foi ministro da Economia e conselheiro - suscita uma reação de rejeição muito clara. Um comentador, aflito com a mediocridade do debate, disse que foi a «insuficiência contra a soberba (l’insuffisance contre la suffisance)». E a crença de uma clarificação toldou-se depressa, quando a estratégia do lançar de lama que Marine Le Pen foi buscar à campanha de Donald Trump nos USA começou a surtir efeitos: as últimas horas de campanha foram dominadas por fake news.

Entre o velho e o novo, há a crise. E ela tem, efetivamente, fenómenos mórbidos.