Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Não sei como chamar a esta crónica

  • 333

Na morte do João houve uma coisa que me consolou um bocadinho: saí da Basílica da Estrela de mão dada com o meu irmão Nuno. Nunca tinha dado a mão a um homem, mas não era a um homem que estava a dar a mão. Era ao meu Nuno, era ao sangue dele que é exactamente o mesmo que o meu

Susa Monteiro

Quando não estava no hospital o meu pai passava o tempo fechado no escritório, a olhar pelo microscópio, a estudar e a ler. Jantava connosco quase sempre em silêncio, comida diferente da nossa, em que mal tocava, e desaparecia de novo escadas acima. Às vezes lá falava um bocadinho, em regra para nos mostrar a nossa ignorância. Não me lembro de o ver fazer uma festa a um filho, não me lembro de uma palavra terna. A minha mãe também não era especialmente demonstrativa. Tudo isto se passava numa atmosfera de austeridade que, na minha ideia, roçava a indiferença. As calorias de amor vinham das avós e das tias. E isto criou entre a gente, os filhos, uma cumplicidade quase muda. O meu grande amigo José Cardoso Pires, que conheceu alguns dos meus irmãos, dizia

– Vocês têm uma ligação muito forte

e claro que tínhamos. Tanto que praticamente não necessitávamos de palavras. O João para mim

– Eu sei sempre o que tu estás a pensar e tu sabes sempre o que eu 
estou a pensar

e, que me lembre, nunca houve conflitos entre nós. Nem grandes confidências, aliás. Cada qual vivia no seu mundo privado, dois em cada quarto, no do João e meu, por exemplo, ele sentado a estudar e eu de barriga para cima na cama, a contemplar o tecto. Aquilo que para mais olhei durante a infância e parte da adolescência foi o tecto. Depois o papel, a escrever. Uma ocasião pus em maiúsculas na parede

Je suis trop seul vivant dans cette chambre

o meu pai entrou por acaso, olhou, viu, desapareceu no corredor, voltou com uma esponja e um copo de água, limpou a frase e sumiu-se de novo. Recordo-me do olhar do João para mim, do meu olhar para ele. Depois, com o tempo, isto foi mudando um bocado. O meu pai começou a falar à mesa, parecia que movido pela necessidade de demonstrar que era mais inteligente e culto do que nós. Não era. Julgo que tinha consciência disso e nos invejava. Uma tarde em que lhe entrei no escritório, eu entretanto grande, claro, mostrou-me um livro do João. Isto numa época em que eu já era o António Lobo Antunes, e perguntou-me:

– Viste a merda que o teu irmão escreveu?

respondi-lhe

– Tomara você fazer isso

e ficou de boca aberta, capaz de matar-me. Mas o que eu lhe disse era verdade e ele, no fundo de si, sabia-o. Ainda acrescentei, antes de sair

– E não o chateie com as suas críticas.

Não chateou. Não disse nada, enquanto eu sentia pena de nós por continuarmos a tentar agradar-lhe. Quem não quer agradar ao Pai? Julgo que, no fundo, se orgulhava da gente. Que não passava de um garoto mimado pelos meus avós. Que não suportava perder. E, connosco, perdeu. Mesmo assim gostávamos dele. Era honesto, 
corajoso

(qualidade importantíssima para todos)

leal. Mas faltava-lhe chama

(o que ele chamava faísca)

faltava-lhe imaginação, faltava-lhe espírito criador. É curioso não me custar nada dizer isto. Creio, não, tenho a certeza que o amávamos por ser nosso pai. Amava-o mas nunca o admirei. Tenho o seu apelido, venho dele. E os cromossomas ainda que o não queiramos, gritam. A sua morte custou-me. Não sei se foi feliz ou infeliz. Acho que nem uma coisa nem outra. Era um homem intelectualmente ambicioso

(ambições materiais nunca lhe encontrei nenhuma)

mas sem capacidade para as realizar. Nós, os filhos, devemos-lhe o que, no fundo, ele mais queria que tivéssemos: o apreço pelas coisas belas. Mas dificultou a nossa relação com os outros, nele competitiva e muitas vezes violenta, e tornou-nos, para sempre, criaturas sedentas de amor, com o coração a pingar súplicas de afecto. Na morte do João houve uma coisa que me consolou um bocadinho: saí da Basílica da Estrela de mão dada com o meu irmão Nuno. Nunca tinha dado a mão a um homem, mas não era a um homem que estava a dar a mão. Era ao meu Nuno, era ao sangue dele que é exactamente o mesmo que o meu. Penso que a partir de agora me é mais fácil exprimir o que sinto: foi tão agradável, mano, achar-me acompanhado, sem necessidade de escrever na parede je suis trop seul vivant dans cette chambre. Que bom não ser só um.

(Crónica publicada na VISÃO 1258, de 13 de abril de 2017)