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José Eduardo Martins

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José Eduardo Martins

Advogado e ex-deputado do PSD

Riscos no chão

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A eficácia da EMEL no estacionamento vai de facto pouco além da cobrança mas faz parte da política de mobilidade atual da Câmara Municipal constitui mais uma área em que a falta de visão conduz a um dificultar crescente da vida das pessoas

O triste e condenável episódio da remoção dos parquímetros da EMEL, em Carnide, é apenas mais um sinal da revolta dos lisboetas contra uma política municipal que sistematicamente os despreza.

Num só caso foi possível perceber muito do que em Lisboa se repete. Desde logo, o modo de operação do presidente de câmara que se furta sistematicamente a resolver e dar a cara nos verdadeiros problemas da cidade. Em Carnide, como no triste episódio do desmoronamento da Rua Damasceno Monteiro há algumas semanas, sempre que algo corre mal, o presidente chega tarde e a reboque da comunicação social.

A segunda coisa que este episódio demonstrou é que infelizmente a boa ideia dos orçamentos participativos, que tanta propaganda rendeu ao presidente António Costa, é afinal pouco mais que um embuste. Muito do que os moradores de Carnide reclamam é que se faça o que já devia estar feito. O que já foi votado e decidido nesses exercícios de democracia popular e que, afinal, tem sido pouco mais que fogo de vista.

As obras para remediar o estado lastimável do Jardim Botânico de Lisboa, um dos projetos mais participados de sempre começaram com três anos de atraso… Mas dos 63 projetos votamos desde 2008 mais de metade estão em estudo e nunca verão a luz do dia. três desses são justamente em Carnide. A construção de um parque de estacionamento e a recuperação de várias artérias degradadas.

Exemplar também o modus operandi da EMEL… pintar uns riscos brancos no chão em rua que não é melhorada, pavimentada, em suma sem nenhuma benfeitoria a não ser a da encher os cofres da câmara, começa a esgotar a paciência nos bairros residenciais onde é preciso muito boa vontade para ver algum efeito benéfico desta “regulação”.

A eficácia da EMEL no estacionamento vai de facto pouco além da cobrança mas faz parte de política de mobilidade atual da Câmara Municipal constitui mais uma área em que a falta de visão conduz a um dificultar crescente da vida das pessoas.

É assumido pela autarquia que está em curso um programa de redução do volume de tráfego na cidade, evidente, entre outros, no programa de obras a decorrer nos seus grandes eixos viários.

Porém, o que pode ser uma orientação política correta, não se tem concretizado como tal. A redução do tráfego automóvel tem de ser acompanhada pelo significativo aumento da abrangência e eficiência do sistema de transportes públicos da cidade, o que não está a ocorrer, e acompanhado por uma coordenação intermodal do uso da bicicleta, o que tão-pouco acontece.

Como resultado, as condições de mobilidade na cidade agravam-se, as intervenções do executivo aceleram essa degradação, e quem mais se ressente são as pessoas.

Lisboa tem hoje uma política coxa. Uma das suas pernas, que é a redução do automóvel, cresce aceleradamente; mas a outra, que é a abrangência e eficiência do sistema de transportes públicos, retrocede, principalmente por falta de liderança política do presidente de Câmara em subserviência ao Governo.

O único resultado da transformação das Avenidas Novas são o acrescento de um polícia a cada semáforo e o esgotar da paciência dos que ainda resistem a viver na cidade.

Em Lisboa a prioridade deve ser dada aos que aqui moram, estudam e trabalham. As pessoas estão primeiro, são a razão de ser das medidas, não podem continuar a ser os danos colaterais de políticas cegas feitas para encher o olho do turista.

Lisboa não pode continuar a ser um estaleiro a céu aberto, onde o experimentalismo substitui o planeamento, onde o dinheiro dos contribuintes é esbanjado em obras inúteis e que infernizam o quotidiano dos lisboetas que merecem mais do que o regresso ao “obreirismo” improvisado e feito em contrarrelógio eleitoral e orçamental.

(Artigo publicado na VISÃO 1258, de 13 de abril de 2017)