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A Europa é o perdão entre franceses e alemães

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O facto destas palavras terem passado praticamente desapercebidas diz muito do nosso desnorte e da nossa doença político mediática

Não há nada mais inquietante do que ver um deputado, de qualquer parlamento, a discursar sozinho. É a negação da própria ideia democrática. O parlamento, qualquer parlamento, é provavelmente a melhor representação física, no quadro das nossas democracias representativas, da ideia democrática. Esvaziá-lo é esvaziar a democracia de ideias, de confrontos de pontos de vista, de discussão, de debate, de negociação, de deliberação. Da busca permanente e incessante de uma verdade que nunca se alcança, mas que sempre se persegue. E como é bom de ver, não há verdadeira democracia, não há democracia substantiva, sem estes elementos nucleares.

Vem tudo isto a propósito de um discurso notável. Feito, no passado dia 25 de março, num Parlamento Europeu quase vazio, pelo eurodeputado espanhol Esteban Gonzales Pons. Chegou-me através de uma mão amiga. Um cidadão atento. Mais atento 
do que eu. Mas esse não é o ponto. 
O ponto é que o facto destas palavras terem passado praticamente desapercebidas diz muito do nosso desnorte e da nossa doença político mediática.

Perdoem-me se lhe “empresto” o resto desta crónica para resgatar do quase silêncio as suas palavras. 
A tradução é livre e é minha. Mas pior do que as traduzir mal é condená-las ao esquecimento.

“A Europa está limitada ao norte pelo populismo e ao sul pelos refugiados afogados no mar. A leste, pelos tanques de Putin. A oeste pelo muro de Trump. No passado, com a guerra. No futuro com o Brexit. A Europa está hoje mais só do que nunca, mas os seus cidadãos não o sabem. Mas a Europa é, todavia, a melhor solução e nós não sabemos como explicar isso aos nossos cidadãos.
A globalização ensina-nos hoje que a Europa é inevitável, não há alternativa. Mas o Brexit também nos diz que a Europa é reversível, que podemos recuar na história. Apesar de saber que fora da Europa faz muito frio.

O Brexit é a decisão mais egoísta que se tomou desde que Winston Churchill salvou a Europa com o sangue, o suor e as lágrimas dos ingleses. Dizer Brexit é a forma menos solidária de dizer adeus. A Europa não é um mercado. É a vontade de viver juntos. Deixar a Europa não é deixar um mercado. É deixar os sonhos que partilhamos. Podemos ter um mercado comum, mas se não temos sonhos comuns, não temos nada.

A Europa é a paz que veio depois da guerra. A Europa é o perdão entre franceses e alemães. 
A Europa é o regresso à liberdade da Grécia, da Espanha e de Portugal. A Europa é a queda do muro de Berlim. A Europa é o fim do comunismo. A Europa é o estado social, é a democracia. 
A Europa é os direitos fundamentais.

Podemos viver sem tudo isto? Podemos desistir de tudo isto? Por um mercado vamos deixar para trás tudo isto? (...). A União Europeia é a única primavera que o nosso continente viveu em toda a sua história.”

Eu sei que os tempos não estão para estes arrebatamentos emocionais. Que o pragmatismo e o cinismo parecem sempre mais inteligentes. Pois sabem que mais: que se lixe.

(Artigo publicado na VISÃO 1258, de 13 de abril de 2017)